5.11.09

renascendo

Para Clara e Madu



olhos, ouvidos, boca e nariz.
coração, pulsação, batida, martelo, compasso.
com paixão.
solução.
solidão? não.

ainda bem que existem pessoas como vocês para deixar tudo azul claro, clarinho.
é que as vezes eu deixo o cabelo cobrir meus olhos, ouvidos, boca e nariz. e pareço só perceber quando, sufocando, elas aparecem.

obrigada pela amizade.
pela irmandade.
pelo que completa a falta.


21.10.09

two hungry blackbirds

E é essa coisa de aprender a bater as asas, aos poucos, aos pingos, que me faz seguir em frente.
Não que eu não quisesse nascer já voando; não, não, seria pretensão demais.
A gente aprende a amaciar a penugem, contar as penas que crescem, contar as que caem e as que ficam mais claras com o passar dos dias em que a gente tenta. E assim vai seguindo...tentando, tentando, até não sei mais onde. Sabe porque? Porque a (nossa) penugem ainda não se completou. O outono, do mesmo jeito que parece ter chegado assim, meio de mansinho, agora é passado. E, talvez o que caiu não tenho sido suficiente para que (nós) aprendamos a dar o próximo passo.
Continuamos os mesmos two hungry blackbirds; só que a fome agora é maior. Aguardamos, então, a próxima estação e os ventos que a trazem.

3.7.09

alucinação

amar e mudar as coisas me interessa mais

6.5.09

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não sabia ao certo como tinha ido para ali, naquela vastidão de mundo, encoberta por céu, água e nada; nem o que possivelmente a teria levado para aquele lugar, aquela situação, aquilo. nesse intervalo de tempo em que tentava processar as idéias em busca de respostas para todos esses questionamentos adicionais na sua vida, que apareceram agora com essa situação, resmungava em alto e bom som porque diabos essas coisas só aconteciam com ela.

pois bem. passaram-se 10 minutos. mais 5 e alguns tapinhas leves no rosto. nos outros 10 minutos seguintes, ela já tinha controlado a suas mãos, a sua respiração e a gradativa emissão de sons - tinha parado de gritar desesperadamente palavras de baixo calão que só ela conhecia - e até tinha arriscado uma mudança de posição...

ora! puxava aqui, mexia mais ali no cantinho, ali mesmo, do outro lado; balançava era tudo, deixando a situação mais inconstante do que ela possivelmente aparentava ser. esse era o problema: possivelmente aparentava ser; não era ainda uma coisa estabelecida, esse possivelmente aí a amedrontava mais do que a idéia de estar boiando em pleno mar aberto em cima de um colchão, sabe-se lá de quem, da onde veio, se tinha restos de xixi humano, de animais ou como ela tinha feito para conseguir boiar em cima daquilo sem afundar (estaria magra demais? será?).

o fato é que, tentava a esquerda, e a direita parecia ser "atrativamente melhor" (hã?). o típico oito ou oitenta. sete ou setenta. quatro ou quarenta. isso ou aquilo ou ainda aquilo tudo ou isso tudo ou tudo ou nada ou nada e tudo; tudo isso, sabe? pronto, sabe, sabe; isso tudo.

essa linha tênue entre o equilíbrio e a queda que o isso ou aquilo exigia tinha sido o seu carma por anos e anos. tentara aula de balé, ioga para idosos, hidroginástica com ênfase em postura corpórea e até acrobacias (acredite!!!) circenses, mas nada parecia surtir efeito.agora, presta atenção numa coisa: sabe o que vem a ser engraçado nisso tudo? não é a parte em que ela era a menos agitada do clube das iogaterceiraidade não, nem o fato dela ser a "jaca mole" dos treinos de acrobacia; é que, sabe-se lá pourquoi ela foi parar ali, como ela foi parar ali, o que diabos ela estaria fazendo ali.. mas, foi em pleno colchão d'água no meio do oceano verde-claro, feliz por se sentir mais magra que ela descobriu que existe sim um lugar onde se pode respirar; depois de 30 minutos nessa realidade, ela desistiu de tentar se equilibrar: se deitou. afinal, também conseguia enxergar na horizontal...

13.4.09

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Era alto, magro e chamativo. Não desses que a gente espera ser rodeado de garotas, o mais estiloso na dança e a pessoa que mais faz amizades em lugares pouco prováveis para o contato de desconhecidos - não, não; passava longe disso.

Eu nem sei o que acontece. Ele ali, enconstado no balcão; copo sobe, copo desce, em movimento único, mão única, sentido único - era mestre nessa arte. O cheiro forte do aguardente que preenchia o copo convidava quem estivesse ali, próximo à cena. Esta que se repetia religiosamente - mesmo local, mesmo horário, fins de semana ímpares ou pares, ou, ainda, ímpares e pares - afinal, quem é que gosta de ser previsível, não é mesmo?

O fato é que ele era mesmo o que a gente podia tachar de, de quê mesmo? Chamativo? Atrativo? Convidativo? Enfim, ninguém quer se perder em meio a sinônimos. Chamativo; é isso mesmo: chamativo. Cabelos cacheados, loiros e um tanto bonitamente esquisitos; é que eles eram de um amarelo tão ofuscante que era impossível não se notar. Uma barba ora ruiva, ora castanha. E pode, pode? Sei se pode não, só sei que era: assim mesmo. A gente ficava na dúvida, achando que ele fazia de propósito. Mas não, não: ele não cultivava o hábito de se pintar não - pintar cabelos, clarear a barba, sei lá mais o quê, né? É que quem acompanhava o vai-e-vem do copo de aguardente entre o balcão e a sua boca percebia as unhas bem cuidadas, as mãos bonitas e aparentemente macias, que combinavam perfeitamente com o seu tom "roseado" - é melhor utilizar aqui perfeccionista ou cuidadoso? Sei não, vai ver é os dois, ou falta muita coisa de cada um ou sei lá o que; não sou perfeccionista nem cuidadosa a ponto de ler entrelinhas...

Tinha o hábito de se encostar no meio do balcão, pegar o copo com quatro dos seus dedos e se envergar sobre ele depois de um gole, parecendo decidir ali, naquele momento, para qual dos lados iria olhar primeiro: esquerda ou direita? Eram tantas decisões a serem tomadas - definitivamente ele não era uma pessoa decidida : quem é que fica em dúvida entre olhar primeiro para um lado e depois para o outro? Ele, só ele mesmo.

Independente do movimento primeiro, sempre voltava o olhar para o copo de aguardente: esse merecia a sua total atenção. Engraçado, né? Parecia mais uma relação fundamentada na atenção recíproca que um devotava ao outro: o copo de cachaça ali, sempre o aguardando-o; ele ali, sempre o procurando. Já parou pra perceber que o sempre é palavra chave nisso tudo? Pois é, perceba, meu filho. Porque logo ali, quando eu completar o meu relato, você vai entender a importância do sempre. Vá por mim, vá...

Voltando à questão: a gente nunca sabia o que mais chamava nele: se era aquele jeitinho envergado, envergonhado, com os ombros retraídos, de quem pega o copo certo do que vai fazer, refutando, assim, o sempre do indeciso destinado à ele anteriormente; ou se era quando aquele seu tom "roseado" se saturava justamente quando a gente ousava ir de encontro àqueles seus olhinhos miudinhos, que pareciam te convidar a uma possível aproximação - o que, "sinonicamente", seria perfeito para o fato dele ser convidativo, ou, melhor, chamativo.

Sei lá, desisti de entender a razão, circunstância ou o porquê de eu ter parado justamente naqueles olhinhos esverdeados e ter aceito o convite de visitação e quiçá, permanência. É que quando ele resolveu pedir um trago do meu cigarro, naquele mesmo balcão de sempre, com o mesmo copo de aguardente que estava sempre na sua frente, enquanto eu me preocupava em desenhá-lo mentalmente, a gente percebe que o sempre só existe nele na forma de elemento inovador. Elemento inovador? Pois é. Prestou atenção no sempre? Pois bem: seja uma cachaça nova, um dedo a mais no copo, a barba mais rala, há sempre o tal do elemento inovador.

Mas ei, peraí...quem é o elemento inovador nessa história toda? Será o cigarro? Será eu? Cigarro? Eu? Cigarro, eu, cigarro,eu, eu, cigarro, cigar...

Ok, isso não importa. Ele conseguiu chamar a minha atenção. E a sua também. Peraí que tá na hora de ir conferir a inovação da noite: minha carona pro bar chegou..adivinha quem é?

12.3.09

daquelas histórias de que o inferno são os outros e outras coisas mais

Exorcizar demônios: é isso que a gente passa uma vida inteira para aprender ou, na melhor das hipóteses, arriscar saber. Aí, o discurso do balbuciar alemão, tomar sorvete e andar de bicicleta ao mesmo tempo ser a coisa mais difícil do mundo não faz muito sentido não. Complicado é a gente rejeitar de vez, sem risco de volta, desvio de rota ou retorno de caminho esse tipo de habitante.
Não saberia dizer a você - você mesmo que se encontra agora, aqui, lendo isso - quando a gente aprende, como acontece esse processo e o saldo de cicatrizes que essa remoção pode causar. Alisamos espinhos até quando não o sabemos: as necessidades humanas precisam disso, faz parte da dinâmica da gente - aprender, desde cedo, a crescer com os benditos.
Confesso que os embates vão se tornando cada vez mais constantes; são aproveitáveis, até. Mas cansam. Estafam. Maltratam. E não falo pelas cicatrizes que vão aparecendo não; cicatriz é marca que traz lembrança, e lembrança só existe se a gente permitir. Falo da cobrança existente a cada nova luta, a cada soada do gongo, a cada espera pelo resultado e, por muitas vezes, pela sua extrema necessidade de força quando é preciso lutar.
Falo de coragem, de necessidade de mudança, de descamação do camaleão, do pêlo crescente de um filhote, da renovação das folhas de uma árvore. Daquela mudança que vem aos poucos, aos pingos; quase imperceptível, microscopicamente observável, mas que traz consigo a coragem para gerar o que seria um começo de confiança em sí próprio, para, a partir daí, algum dia, levar a gente a confiar nos outros e nos seus demônios. Afinal, o inferno não são os outros, o inferno não é a gente; somos todos mapas-mundi habitáveis, também, por demônios. Aprendamos com eles seja lá o que for - expulsá-los, maltratá-los, alimentá-los, [...]