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26.4.10

deus e o diabo na terra de quem mesmo?

O cheiro dele era tão bom nas mãos dela quando
ela ia deitar, sem ele. O cheiro dela era tão bom nas mãos dele quando ele ia
deitar, sem ela[caiof]
Começou assim essa coisa toda de sentir demasiadamente. assim como chuva fina que vai te pegando com um pingo aqui, outro acolá. assim como arranhão na pele crua onde a gente sente cada poro se rasgando, abrindo como se cada lado reivindicasse a sua parte do todo. assimfoi e assim sempre será. essa coisa doida de sentir tão intimamente tudo e saber que a relativização da linha tênue entre entre dor, espasmo, prazer ou excitação vai se tornar bastante comum logo, logo. pois bem, esquecendo disso por um instante, a gente pára logo ali na frente: quando se vê, lá mesmo, pagando aluguel, tomando conta do quarto principal, aquele mesmo com banheiro maior, cama macia, janela virada para a rua mais bonita, além da sorte de ter uma bandeja ali do lado, na cozinha, sempre com uma flor te esperando. aí a gente não sabe bem o que esperar do futuro. as dúvidas, as dívidas, os consumos exacerbados, a quantidade limítrofe do normal passa a andar na corda bamba e o medo de conseguir gostar cada vez mais de tudo isso. pânico poderia ser o nome do filme, você não acha? não cairia bem? - é, pode ser. [talvez]você me responderia[isso]. ou melhor: pânicoinstaurado. ok, não é hora para se discutir isso. o fato é que, amigo, você se encontra logo ali, no passo mais a frente do que você jurou que seria o mais radical que você faria - claro, quem mandou sempre renegar toda aquela adrenalina adolescente e os pedidos dos amigos para se juntar nas atividades radicais? - Pois bem, você está aí mesmo. talvez nem tenha percebido como o sentir demasiadamente te anestesiou de diversas coisas e pessoas e situações. e vários outros pontos que nós poderíamos ficar discutindo aqui durante toda a nossa existência, você não acha? é, aí seria demais. nada de novo. mas voltando... você percebe que chegou no ponto onde o pânico é só mais um coadjuvante nesse sentimento demasiado. quiçá, diria até um estimulante - o único que você realmente se permitiu durante a sua vida until now (visto que adrenalina nunca foi o seu forte, colega). é, mas que bela enrascada, visse? caíste na cama de gato que tu sempre armasse contra tudo e todos, inclusive contra a tua própria alma. ou vai me dizer agora que tu alguma vez já tentasse realmente permitir uma aproximação dela? tenha dó, vá. tenha logo esse dó e admita que você tá perdidinho da silvasauro nesse mundão novo onde o outro é ator principal, onde você não é mais sujeito individual e que você mudou até o hábito de não tomar café da manhã por conta da bandeja bonita com a flor vermelha que, de certa forma, chega todos os santos dias que você passa nisso tudo. que você admira como a flor chega mudada toda manhã. umas vezes pela quantidade de água colocada. umas outras tantas pelo sol que levou antes de chegar até o seu destino. no restante? talvez seja aquela coisa de adubar e tudo o mais... é só um chute, viu? porque, já sabe né, a gente não se mete a compreender a dimensão do significado das coisas quando elas são pesadas demais para a gente tentar de alguma forma significá-las mais ainda. imagine só o crime que seria isso. nome a gente dá para as coisas conhecidas. as desconhecidas ficam prontas para serem reinventadas, reinauguradas, renomeadas todo santo dia de meu deus. claro que em uns certos dias, os nomes podem até virem com prefixos e/ou sulfixos menos estimulantes. imagine só, até a flor pode vir menos altiva, quanto mais as palavras. o fato é que eu poderia ficar até amanhã ou depois ou logo depois também enumerando as diversas possibilidades que a gente tem diante do sentir demasiado. mas não vou não, visse? vou te poupar bonito. porque, ninguém merece ficar ouvindo sentimentalismo alheio quando o que a gente mais quer é ouvir aquele sentimentalismo ali, o que nos interaessa, aquele alimesmo naquela beira daquela janela, onde o cantinho mais próximo fica a alguns centímetros de distância - é, ali mesmo, onde a bandeja com a flor está devidamente posta, esperando só pelo acúmulo de sentimento do dia. tou pedindo demais, colega? claro que não tou. e você sabe disso. afinal, todo mundo tem um acúmulo de sentimentalismo - mesmo barato, mesmo banal, mesmo até ridículo - esperando só o momento de aparecer. e vou terminar te dizendo uma coisa séria, presta atenção: o danado é bom. mais ainda se vier com a carga de pânico e o sentimento de cordabamba e vento na cara e coisa no estômago e tudo o mais que a gente vai sentindocoisandoimaginandoeticeterando..
viu só como é facinho se desviar do foco? mas o foco não era mesmo o pânico disso tudo? meu deus, onde foi que eu me perdi? pro diabo tudo isso. nada mais demasiamente anestesiada. nem sei mais onde isso vai dar, em terra de de deus ou no inferno dos demais. deixa eu ir ali que a flor, o quarto e ... enfim. me esperam. me espere.

27.12.08

tchibum nas emoções

Era toda essa coisa de mergulhar num abismo profundo, de braços abertos, cabelos esvoaçantes, vento no rosto e olhos fechados - que é para não afugentar as expectativas - que fazia com que ela acordasse suada e num pulo só da cama. Tinha os cabelos colados na cara, a respiração acelerada, o coração descompassado e uma falta de ar que não chegava a ser sufocante, mas, que assustava, assustava.

Esse medo descabido e latente das emoções que a atormentava justamente como era quando ela tinha dez anos e tinha que subir numa árvore qualquer ou escalar um muro para acompanhar a brincadeira das outras crianças. Acompanhar, ela acompanhava; de olhos cerrados, dentes trancados, força motora a 100% e pensamento no anjo da guarda, única oração que conseguiu aprender mesmo. E agora, tudo voltava à cena: aquela sensação de desespero e angústia pela negação do presente e os quereres de um após tudo isso, que sabe-se lá se tem futuro denominar isso de futuro, entende? Entende.

Aí, ela levantava e ficava em frente à cama, como quem tenta refazer tudo dentro das suas possibilidades, no caminho das linhas da palma da sua mão, na cadência normal dos seus passos. Suavemente, ela recria a oportunidade perdida minutos antes: dá um tchibum na sua cama, dá um tchibum nas suas emoções. Afinal, a madrugada ainda estava ali, bonita, reinante, só esperando a hora certa para que ela voltasse a acordar do mesmo sonho, e, mais uma vez, fizesse a sua escolha.

Ela? Dessa vez, escolheu entrar no acaso e amar o transitório. Sim, Carlos Pena Filho, entrar no acaso e amar o transitório.

22.12.08

baby, i love you




Tenho uma teoria acerca da importância da música nas nossas relações do cotidiano: para mim, uma relação só existe se ela tiver a sua música própria, aquela que serve de trilha sonora, que toca involuntariamente na sua mente quando a rádio sintoniza tal pessoa ou tal estação que te faz lembrar esse certo alguém.

Pronto, é disso mesmo que eu quero falar hoje, porque eu, ultimamente, ando gritando, escrevendo, assim, no ar, como uma doida, para quem passa na minha frente e é atingido, ferido, zapeado, lombrado ou chamado por tudo isso. Chego a parecer uma doidamaluca quando paro e jorro alguns versos de canções, meio desajeitadamente e, até, timidamente, ora em forma de cantoria, ora como uma leve e doce poesia: e quem recebe, pelo menos até hoje, tem reparado na [real] importância disso.
Não é que cada um tenha que ter um numerozinho presente naquela escala que a gente fica rodando o botãozinho atrás de uma boa freqüência não; o que eu quero deixar claro é que, justamente, são poucas as pessoas que têm essa estação marcada, decorada, entre os números principais da rádio da nossa mente.
Tenho uma música para cada um dos meus amores cultivados, sejam eles amores constantes, amores clandestinos, desamores ou eternos. E é de se impressionar como a freqüência é sempre fantástica!
O samba é, geralmente, dos desamores: amargura, cerveja, saudade e boas lembranças fazem com que ele toque na vitrola da gente e remeta a algum dos amores citados. As canções mais antigas, que a gente guarda nas estações chamadas clássicas, são as que nos lembram aqueles momentos que outrora estavam aqui, quase que na janela da gente, como aquela fazenda antiga e os violões, mas que hoje fazem parte de um passado cheio de Belchior, Benito de Paula, Clube da Esquina, O Grande Encontro e outras poesias que, inacreditavelmente, eu sei cantar desafinadamente e muito mal, mas não erro uma sílaba!
Os Novos Baianos, Gil, Gal e seus Doces Bárbaros, a sangria da Ave, a transcendência do Harrison, o amor transbordante do Chico, do Caetano, de tantos outros que fazem com que a gente grite, a gente pule, a gente se abrace, cante na janela do carro, com o vento batendo na cara, dance e dance e dance e nunca se canse é outro ponto importantíssimo: esses daí fazem parte dos amores constantes. Tocam todo dia, como quem já sabe que toca na mesma freqüência pulsante do coração.
As trilhas de filmes? Bem, essas, com certeza, viram as trilhas dos clandestinos: platônicos, efêmeros, suspirantes, seja lá a denominação que a gente quiser atribuir à isso, é fato que, de amores clandestinos, o filme da nossa vida anda cheio, não é? Só que, aí parece mais aquele enígma do "copo metade cheio ou metade vazio?", porque, se a gente parar para analisar, quantos rolos de filmes são precisos pra caber toda a sua vida? Vários, eu te garanto. E, por isso, meu amigo, te falo aqui, agora, sem nenhuma cerimônia: amores clandestinos são precisos, preciosos e (im)previsíveis nessa vida da gente.
Pra terminar, e os amores eternos? Esses são como as músicas das letras bonitas, que fazem a gente chorar cada vez que repetimos ela: ela consegue criar uma lágrima diferente para cada sintonizada na estação. São as músicas do João Bosco, com certeza. São as músicas que a gente sabe cantar todinha, sem pestanejar, e que, quando canta, sintoniza o pensamento em alguém. É como ouvir o bêbado e o equilibrista e não sentir um arrepio; não gritar o baby, i love you e cantar você precisa saber da piscinada margarinada Carolinada gasolinade
mim
colocando a cabecinha meio de lado, tentando sentir a música.
Minha gente, essa trilha desses amores eternos é, simplesmente, a trilha dessas nossas relações. Simples assim.

27.11.08

sebastian, you're in a mess...

Quando
percebeu, eratarde
demais: sebastiantinha puxado o livro da prateleira,
sem
muito,ou nenhum,
cuidado edesarrumado tudo!
Como num
efeitodominó, foi
tudo desabando:os
romances se misturaram com as
ficçõescientíficas, que, por
conseguinte,caíram em
cima e esconderam,
devez, as obras consideradas
utópicas.
O fato é que,
mesmodepois de
ter arrumado essa confusão
toda,
olivro puxado não
era,exatamente, o
que ele esperava ser:
continha, apenas,
aparte teórica do
quevem a
ser um simulacro.
Percebe o tamanho
daencrenca?
Poisbem, perceba.
Sebastian
nãopercebeu.
É que ele ignorou
oaviso bem grande
escritona parede
atrás da prateleira, e, que, na verdade,o
confundia
mais ainda: PUTTHE BOOK BACK
ON THE
SHELF.
Se o aviso servia
paratodos os tipos
delivros, então,
isso
significa que a escolha nunca ia
sersatisfatória?
Não soube
responder
apergunta
formuladamentalmente.
Folheou, folheou,folheou,
folheou.
Depois,arrumou a prateleira da forma
que mais o agradava.Antes
de
sair, reforçou
a cor do aviso. Saiu numa
passada
só.

15.11.08

colhendo certezas

É que ele adorava quando ela o abraçava assim, meio sem jeito, mas, ao mesmo tempo, cheia desse seu jeitinho desajeitado. Esses abraços o faziam ter a certeza de que ele queria estar acordado por ela, estar por ela, ou, ainda, ser por ela.

Ela se virou ainda a tempo dele poder olhar para as suas costas e contar os sinais espalhados pelo seu corpo. Essas coisas dela. Só dela. Não resistiu. A abraçou novamente, como quem grita desesperadamente para que ela permaneça.

E não é um permanecer de ficar ali, até o dia amanhecer e a noite voltar, não. É aquele ficar de não ir embora. Não ir embora. Ficar com ele e ficar para ele.

O abraço retribuído era a resposta que ele precisava.
Estava tudo bem.









Estar acordado por ela, estar por ela. Ou, ser por ela.

14.11.08

Hoje o samba saiu, procurando você

Foi de repente que o cigarro queimou os dedos dele. Tinha esquecido que, de uns tempos para cá, mantinha um ritual sagrado todo dia, nessa mesma hora, nesta mesma janela.
De uma maneira nem um pouco desajeitada, com um cigarro na mão, se encostava meio de lado na janela que dava para a rua principal. Meio de lado é eufemismo, já que, na verdade verdadeira mesmo, ele se virava completamente para a direita, como quem quer evitar o lado esquerdo de qualquer maneira. Fumava seu cigarro calmamente, como se estivesse matando o tempo, como quem espera algo junto de alguém que só pode te oferecer o silêncio e, visto isso, uma falsa promessa de companhia. Era mais ou menos assim o seu ritual.
As vezes, até que se distraia com alguma coisa: o carrinho de cds piratas, a mulata que passava rebolando em cima do salto alto, o garoto que descia a ladeira de bicicleta, ou algum conhecidovizinho que, sabendo que iria encontrá-lo ali, passava acenando e querendo puxar conversa.
Mas, a máxima atenção que poderia dar a alguém, seria um olhar sem um desvio súbito.
Havia nos seus olhos uma espécie de coisaestranha; sua mudez era a prova de que, definitivamente, ele carregava todo o peso da alma não nos seus ombros, e sim nos seus olhos.
Nos três meses que se passaram desde a sua vinda para esse sobrado, tinha saído do seu refúgio uma meia dúzia de vezes: algumas para comprar mantimentos, outras para caminhar estranhamente até a esquina e, logo em seguida, voltar para casa. A sua sorte era um amigo - seu único, aliás - que vinha toda semana conversar, trazer coisas que precisava e fazer companhia. Só.
Aliás, só era como o chamavam.
Alguns até arriscavam que ele era mudo; que uma espécie de mudez o atormentava. Ou uma gagueira. Sim, sim. Uma vez, correu um boato que ele gaguejava tanto, que resolveu parar de falar de vez, e, para evitar isso, acabou se isolando. Tinha gente que contava até que ele tinha inventado uma mentira e que o gato tinha comido a língua dele - essa as crianças detestavam. Ou então, falavam só que ele devia ter feito algo de muito ruim a alguém e tinha rejeitado a vida de vez.
Nisso eles tinham razão: ele tinha rejeitado a vida de vez.
A posição na janela não era proposital não: ele evitava ver o sol se pondo. Odiava ainda não ser forte o suficiente para conseguir vencer essa sua vontade de ver vida, mesmo que seja a dos outros. Foi aí que estabeleceu esse hábito de fumar na janela: só assim, uma vez no dia, poderia contemplar a vida como ela é, por um certo espaço de tempo - no caso, o tempo que o cigarro durasse.
O que se sabe é que, até aquela tarde em que o susto da queimadura do cigarro o fez derramar o seu copo de bebida bem em cima do cigarro caído no chão, causando o incêndio do seu apartamento todo, ele sempre soube esconder o seu mistério. Morreu ali, esperando alguma coisa que não se sabe bem o que era, a que horas chegaria, data, dia da semana, ano e todo o resto da documentação.
O acontecido serviu de pano para a manga de muitos boatos em toda a vizinhança: desde surto psicótico, tentativa de roubo + assassinato, até suicídio. Pois é.
Ainda tinham uns metidos a poeta que, sentavam ali na frente, e nas rodas de conversa, tentavam conquistar as mulatas da vizinhança fazendo versos sobre o estranho do cortiço e a sua morte vendo a vida passar pela janela.
Ah! e pensa que os sambistas deixaram barato? Na mesma noite em que ele morreu, no samba do bar da esquina só se ouvia
-
Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
-
Era a única maneira que eles tinham de reverenciar o desconhecido. É que agora todo mundo entendia a mudez dele: ele carregava ânsia demais nos olhos para ter forças, ainda, de falar. E de viver. Quem sabe?
-
O samba continuou até o dia amanhecer.

8.11.08

[mariposa de] sueño.

ele não sabia muito bem como foi que acordou com aquela frase feita na cabeça.
porque, parecia coisa de filme, daqueles waking life da vida: de acordo com o roteiro, ele acorda com uma frase estampada no breu que aparece quando ele se dá conta que está acordando mas ainda mantém os olhos fechados. (sabe como é, né?)
pois bem. é isso mesmo.
aí, ele abre os olhos, repetindo a frase mentalmente, sem muita energia ainda para tentar um movimento de boca, pega o papel que está na mesinha do lado da cama e escreve as palavras, como quem ainda não sabe bem o que está acontecendo ou o peso que aquilo tudo pode ter. na verdade, ele só intui qualquer significado besta, a princípio, e, por isso, resolve registrar tal acontecimento. é que, a gente sempre ouve por aí que fulano sonhou com o número que foi sorteado na megasena, ou que sicrano sonhou com um boi e apostou no jogo do bicho e levou uma grana danada, entre outras lendas urbanas, né?
então, ele fez isso. anotou com um rabisco rápido, em linhas tortas, sem se importar muito com a forma que escrevia. afinal, eram seis horas da manhã de um sábado, e ele tinha sido acordado por uma frase. uma frase. uma frase?
é, até aqui parece realmente um roteiro de um filme/curta ficção. quer dizer, qualquer coisa menos realidade.
quem é que acordaria com uma frase? as pessoas, aquelas que têm o sono leve, acordam com barulhos, ventos fortes, esse tipo de coisa quase-bruta-mas-não-tão-bruta-pra-não-ser-meio-abstrata-mas-também-nem-tão-abstrata-pra-ser-realmente-abstrata. mas uma frase?!?!??!?!
nesse meio tempo, seu coração já tinha começado a bombear sangue suficiente, a adrenalina já corria normalmente, tudo trabalhava. e ele não tinha mais como se refugiar no sono que tinha sido interrompido; isso já tinha se esvaído.
aí ele se virou, como que numa tentativa de ignorar aquilo que estava escrito no papel. virou as costas, fechou os olhos, puxou o lençol para mais perto e pronto, se jogou. se jogou mesmo, como quem se atira desesperadamente pra frente quando vai atravessar uma avenida movimentada e calcula de forma bem desajeitada a distância/velocidade do carro que está vindo, e se joga, achando que tudo está certo e que vai ocorrer do jeito que se pensou. mas se jogou onde?
se jogou no abismo que se formava dentro dele: parecia que tudo tava juntoemisturado numa via de mão única, que levava diretamente ao lado esquerdo do peito. não adiantava disfaçar. era isso mesmo. isso mesmo.
finalmente, quando resolveu se levantar, sentindo umas pontadas do lado esquerdo do peito, pegou o papel, uma xícara de café, caminhou até a janela da frente e leu em voz alta o que tinha escrito, meio com dificuldade, já que a letra não ajudava muito:


- eu tou com saudade.


só restou um riso. e dois, e três.

25.10.08

Crônica de um Menino Só

E ele era tão sozinho, mas tão sozinho, que cada um dos seus vinte dedos eram pessoas diferentes, alternando sexo, nome, sobrenome, idade, profissão e endereço (obviamente) a cada dia.
O ruim era só ter que enxaguar as mãos tortuosamente todo final do dia, deixar a água cair na pontinha dos dedos para apagar o cabelo mal desenhado, os olhinhos pequenininhos e a boca meio sorridente dos vinte. Doía ter que destruir tudo isso. Esquecer as horas de conversa, as horas de preparo dos dedinhos, tudo, tudinho.

Esse esfrega, esfrega deixava tudo vermelho: suas mãos - da onde saia toda a força - seus dedinhos - que recebiam toda a força - e o seu rosto, também. É que ele morria de vergonha de ter que fazer isso com as únicas companhias dele. Parecia uma espécie de traição, isso dele. Esse não querer se apegar a ninguém.

Ah, como ele odiava essa sua característica; algumas vezes, deitado no travesseiro, depois de todo o procedimento do 'lave mãos', ficava se perguntando se isso era uma qualidade sua ou um defeito. Ficava olhando os dedos das mãos, e, assim, tendo eles completamente nus, os observava meticulosamente. Parecia que cada giro das suas mãos era um movimento calculado. Procurava afeição por aqueles dedos que, a única identidade que poderiam ter era a de seus dedos, dedos do menino só. Entretanto, ele bem sabia que nunca quisera - e não iria ser agora - se apegar a nada, inclusive a ele mesmo. E, pelo rosto vermelho de vergonha em cada noite que ele colocava fim no seu simulacro, se sabe que ele realmente considerava isso um defeito seu. Só não se sabe porque ele tinha escolhido viver nesse faz de conta...

O fato é que, por escolher o simulacro como estilo de vida, ele teve lá as suas recompensas: na sua mente - tão obtusa e pequena - não convivia nunca com a mesmice.

É bem verdade que, estando num estado crítico de simulacro da realidade, ele podia criar o que quisesse, na hora que achasse conveniente. Mas, sinceramente, ele foi apenas enganado pela mesmice da vida: escolheu viver a mesma coisa todos os dias, mudando apenas algumas etiquetas das coisas que ele mesmo fabrica. E quem é que, hoje em dia, está interessado em viver apenas com o que se fabrica?

Triste de quem passa a cantar o todo dia ela faz tudo sempre igual todo santo dia.

Afinal, se a gente vê todo dia como santo, porque deixar o todo santo dia existir?


8.10.08

agenda-setting e a vida nossa de cada dia..


O verbo informar, derivado do latim, originalmente significava, em inglês e francês, não só relatar fatos, mas, também, formar a mente. Desde o século 15, com a revolução da prensa gráfica criada por Gutenberg, a importância da informação já era claramente apreciada em alguns círculos sociais. Mas, foi nos séculos seguintes, com a formação de uma sociedade comercial, resultante das revoluções francesa e industrial, que ela ganhou destaque.

Com o aumento do número de impressos que a prensa proporcionou, uma imprensa periódica pôde se formar. Essas publicações, muitas vezes, eram lidas em voz alta e discutidas nos cafés - estes que, se tornaram um foro político, onde homens, mulheres e até os que não sabiam ler tinham voz na discussão do relato oral das obras - embora nem todos fossem ouvidos com igual interesse.

Durante a revolução francesa, a mídia desempenhou um papel importante, atuando como uma formadora de opinião entre as diferentes esferas da sociedade. Obras como a Enciclopédia despertavam a consciência política e transmitiam conhecimento não só para os ricos que podiam comprá-las, mas, também, à população em geral, já que edições mais baratas foram lançadas devido à facilidade de publicação que a prensa trouxe.

No entanto, é fato que a tecnologia não pode ser separada da economia e que o conceito de revolução industrial precedeu o de revolução da comunicação. A revolução industrial trouxe a idéia do avanço, do novo, em todos os setores. Na mídia não seria diferente. O telégrafo, o rádio, a televisão, a fotografia e o cinema surgiam como a vitória sobre o tempo e o espaço, como facilitadores da ‘nova vida moderna do homem na era moderna do mundo’. Aliás, desde os primórdios da humanidade, o homem busca facilitar a sua vida: inventou a roda, dominou o fogo, descobriu a eletricidade... Afinal, essa seria mais uma fase da história das descobertas humanas, ou o homem estaria condenado a estagnar nisso? Regressão ou evolução?

Assim como a soma, no Admirável Mundo Novo do Huxley, e os comprimidos anestesiantes, do Fahrenheit 451, a sociedade de hoje vive das informações triviais que a mídia escolhe – ou melhor, segundo ela, ‘seleciona’- mostrar. A manipulação de notícias é fato mais que provado no dia-a-dia da imprensa. E o que a população faz a respeito disso? Senta no sofá e desfruta de toda a programação disponibilizada pelas redes de comunicação – seja ela na TV, no jornal ou no rádio. Aliás, um dos pontos fortes de crítica que o Fahrenheit faz a sociedade é o fascínio que a televisão exerce sobre as pessoas. Muitas delas crêem que assistir a quatro horas de TV as torna aptas a uma reflexão acerca do mundo.

O que se deve deixar claro é que não devemos ser contrários à inovação, afinal, quem vive de passado é museu. Entretanto, do que adianta se sentir poderoso por ter um controle remoto em mãos e poder passear por diversos canais de informação por segundo na TV, se a maior parte do que é veiculado pela mídia não nos dá chance de reflexão?

Voltando à questão lançada anteriormente sobre regressão ou evolução, chega-se a um ponto final: com tão pouco estímulo para se pensar hoje em dia, do que adiante eletricidade, rodas e fogo brando se o homem continua querendo usar apenas 1/3 do seu cérebro? A preguiça pode até ter servido como estimulante para o surgimento de invenções que transformariam a vida em sociedade, mas será que o preço a ser pago por elas é a ignorância pela acomodação?