não satisfeita emser quem vinha sendo, resolveu tirar a pele em que habitava.essa coisa de dress up in you*, onde ela era totalmente riscada por fora, a fez exibir, agora, sinais do lado de dentro.uma vez estando internamente, a pele era ríspida, grossa, resistente, resultado de anos de proteção aos agentes externos.mas agora, essa camada de pele estava indo embora. esse seu nu era diferente.uma reconfiguração na proteção interna. se vai a pele morta, se cria vida lá dentro. com um revestimento simples, prático, sem complicações: uma camada de boa vontade, outra de compreensão, uma de esperança e outra gigantesca de amor.gerou um nu completo, transparente. límpido, novo, resistente.aos poucos, o medo ia embora, deixando a certeza de quem sabe o que está fazendo.é, sabia que habitava numa nova pele.agora, mais que nunca, tinha certeza de que todos nós somos mapa-mundi habitáveis.a forma como se habita a si mesmo, nós escolhemos. a pele cresce em todo mundo... só é preciso deixar-se habitar.por ela. pelo outro. pelo todo.tinhaencontrado quem ela queria ser.
18.4.12
dress up in you
26.3.12
20.3.12
26.4.10
deus e o diabo na terra de quem mesmo?
O cheiro dele era tão bom nas mãos dela quando
ela ia deitar, sem ele. O cheiro dela era tão bom nas mãos dele quando ele ia
deitar, sem ela[caiof]Começou assim essa coisa toda de sentir demasiadamente. assim como chuva fina que vai te pegando com um pingo aqui, outro acolá. assim como arranhão na pele crua onde a gente sente cada poro se rasgando, abrindo como se cada lado reivindicasse a sua parte do todo. assimfoi e assim sempre será. essa coisa doida de sentir tão intimamente tudo e saber que a relativização da linha tênue entre entre dor, espasmo, prazer ou excitação vai se tornar bastante comum logo, logo. pois bem, esquecendo disso por um instante, a gente pára logo ali na frente: quando se vê, lá mesmo, pagando aluguel, tomando conta do quarto principal, aquele mesmo com banheiro maior, cama macia, janela virada para a rua mais bonita, além da sorte de ter uma bandeja ali do lado, na cozinha, sempre com uma flor te esperando. aí a gente não sabe bem o que esperar do futuro. as dúvidas, as dívidas, os consumos exacerbados, a quantidade limítrofe do normal passa a andar na corda bamba e o medo de conseguir gostar cada vez mais de tudo isso. pânico poderia ser o nome do filme, você não acha? não cairia bem? - é, pode ser. [talvez]você me responderia[isso]. ou melhor: pânicoinstaurado. ok, não é hora para se discutir isso. o fato é que, amigo, você se encontra logo ali, no passo mais a frente do que você jurou que seria o mais radical que você faria - claro, quem mandou sempre renegar toda aquela adrenalina adolescente e os pedidos dos amigos para se juntar nas atividades radicais? - Pois bem, você está aí mesmo. talvez nem tenha percebido como o sentir demasiadamente te anestesiou de diversas coisas e pessoas e situações. e vários outros pontos que nós poderíamos ficar discutindo aqui durante toda a nossa existência, você não acha? é, aí seria demais. nada de novo. mas voltando... você percebe que chegou no ponto onde o pânico é só mais um coadjuvante nesse sentimento demasiado. quiçá, diria até um estimulante - o único que você realmente se permitiu durante a sua vida until now (visto que adrenalina nunca foi o seu forte, colega). é, mas que bela enrascada, visse? caíste na cama de gato que tu sempre armasse contra tudo e todos, inclusive contra a tua própria alma. ou vai me dizer agora que tu alguma vez já tentasse realmente permitir uma aproximação dela? tenha dó, vá. tenha logo esse dó e admita que você tá perdidinho da silvasauro nesse mundão novo onde o outro é ator principal, onde você não é mais sujeito individual e que você mudou até o hábito de não tomar café da manhã por conta da bandeja bonita com a flor vermelha que, de certa forma, chega todos os santos dias que você passa nisso tudo. que você admira como a flor chega mudada toda manhã. umas vezes pela quantidade de água colocada. umas outras tantas pelo sol que levou antes de chegar até o seu destino. no restante? talvez seja aquela coisa de adubar e tudo o mais... é só um chute, viu? porque, já sabe né, a gente não se mete a compreender a dimensão do significado das coisas quando elas são pesadas demais para a gente tentar de alguma forma significá-las mais ainda. imagine só o crime que seria isso. nome a gente dá para as coisas conhecidas. as desconhecidas ficam prontas para serem reinventadas, reinauguradas, renomeadas todo santo dia de meu deus. claro que em uns certos dias, os nomes podem até virem com prefixos e/ou sulfixos menos estimulantes. imagine só, até a flor pode vir menos altiva, quanto mais as palavras. o fato é que eu poderia ficar até amanhã ou depois ou logo depois também enumerando as diversas possibilidades que a gente tem diante do sentir demasiado. mas não vou não, visse? vou te poupar bonito. porque, ninguém merece ficar ouvindo sentimentalismo alheio quando o que a gente mais quer é ouvir aquele sentimentalismo ali, o que nos interaessa, aquele alimesmo naquela beira daquela janela, onde o cantinho mais próximo fica a alguns centímetros de distância - é, ali mesmo, onde a bandeja com a flor está devidamente posta, esperando só pelo acúmulo de sentimento do dia. tou pedindo demais, colega? claro que não tou. e você sabe disso. afinal, todo mundo tem um acúmulo de sentimentalismo - mesmo barato, mesmo banal, mesmo até ridículo - esperando só o momento de aparecer. e vou terminar te dizendo uma coisa séria, presta atenção: o danado é bom. mais ainda se vier com a carga de pânico e o sentimento de cordabamba e vento na cara e coisa no estômago e tudo o mais que a gente vai sentindocoisandoimaginandoeticeterando..viu só como é facinho se desviar do foco? mas o foco não era mesmo o pânico disso tudo? meu deus, onde foi que eu me perdi? pro diabo tudo isso. nada mais demasiamente anestesiada. nem sei mais onde isso vai dar, em terra de de deus ou no inferno dos demais. deixa eu ir ali que a flor, o quarto e ... enfim. me esperam. me espere.
27.12.09
3.7.09
14.2.09
expectations
27.12.08
tchibum nas emoções
Esse medo descabido e latente das emoções que a atormentava justamente como era quando ela tinha dez anos e tinha que subir numa árvore qualquer ou escalar um muro para acompanhar a brincadeira das outras crianças. Acompanhar, ela acompanhava; de olhos cerrados, dentes trancados, força motora a 100% e pensamento no anjo da guarda, única oração que conseguiu aprender mesmo. E agora, tudo voltava à cena: aquela sensação de desespero e angústia pela negação do presente e os quereres de um após tudo isso, que sabe-se lá se tem futuro denominar isso de futuro, entende? Entende.
Aí, ela levantava e ficava em frente à cama, como quem tenta refazer tudo dentro das suas possibilidades, no caminho das linhas da palma da sua mão, na cadência normal dos seus passos. Suavemente, ela recria a oportunidade perdida minutos antes: dá um tchibum na sua cama, dá um tchibum nas suas emoções. Afinal, a madrugada ainda estava ali, bonita, reinante, só esperando a hora certa para que ela voltasse a acordar do mesmo sonho, e, mais uma vez, fizesse a sua escolha.
Ela? Dessa vez, escolheu entrar no acaso e amar o transitório. Sim, Carlos Pena Filho, entrar no acaso e amar o transitório.
22.12.08
baby, i love you
Tenho uma teoria acerca da importância da música nas nossas relações do cotidiano: para mim, uma relação só existe se ela tiver a sua música própria, aquela que serve de trilha sonora, que toca involuntariamente na sua mente quando a rádio sintoniza tal pessoa ou tal estação que te faz lembrar esse certo alguém.
Tenho uma música para cada um dos meus amores cultivados, sejam eles amores constantes, amores clandestinos, desamores ou eternos. E é de se impressionar como a freqüência é sempre fantástica!
mim colocando a cabecinha meio de lado, tentando sentir a música.
6.12.08
sim, inverno, estamos vivos.
dente-de-leão: a gente sopra por aí e pronto,
ele sai se espalhando, numa
cadência sem igual. Só quem tem trabalho nisso tudo
é o vento: ele é o
encarregado de levar cada partícula de semente que sai se
jogando no meio do
nada, como se já tivesse esperando ser embalada por essa
dança do
me-leva-que-eu-vou-junto. Só que, não pense que, apesar dessa total
liberdade de escolha do vento, as sementes acabam se deixando levar
completamente, como se não tivessem forma, tamanho e necessidade. Não é bem
assim.
É que muitas delas acabam se metamorfoseando e, por
conseguinte, se adaptando a cada
novo lugar ao qual são levadas. As que não
conseguem, simplesmente vão
caindo, caindo, caindo, até baterem no chão e
causarem um estalo que,
audível mesmo, só para quem a viu despencar.
Quer fazer o
teste? Sopra um dente-de-leão em frente a um
espelho, e espera para ver as
sementes que conseguem se acoplar nos poros do teu
rosto. E, aí, quando
perceber o último estalo no chão, você vai saber que,
apesar destes
pesares,
nós continuamos sempre sendo mapas mundi habitáveis;
os poros,
sementes, formas, tamanhos e necessidades que acabam
mudando;
O outono é quase aí,
29.11.08
boys don't cry
Foi só porque cada inspiração de ar ia se tornando
fatigante, que ele resolveu tentar acabar de vez com toda essa
expectativa.
Foi ao lugar marcado. Cambaleante, como quem anda
carregando um peso amarrado aos seus calcanhares. Cada passada era um esforço
tremendo para conseguir se manter em pé - manter a sua cabeça reta,
"altiva".
Quem observava a cena de longe, não entendia esse
caminhar de passos duros: não era nenhuma ladeira a rua, oras...
Finalmente, chegou ao seu destino. Não sabia se
ficava aliviado ou desesperado. Puro impulso esse de querer chegar lá nessa
rapidez. Nem deu tempo de se preparar, pensava ele.
Quer dizer, pensava em tanta coisa que os únicos
pensamentos inteligíveis que conseguiu captar antes que seu olhar cruzasse com o
dela foram estes mesmo. Só. Depois, tudo virou breu.
Fitou aquele olhar que parecia ter imposto um muro
de concreto entre duas realidades[agora]diferentes, mas que outrora, já
foram uma só.
O muro, na verdade, ele pôde enxergar visivelmente
após os 5 segundos que demorou perdido naqueles olhos: era o novo
rapaz.
O que fazer? O que dizer? O que
olhar?
Não sei dizer no que ele
pensou.
Apenas abaixou a cabeça, como quem sabe
que não podia mais tentar plantar a florzinha que carregava na mão em cima
do muro dela, em cima do muro deles. Ele tinha sido substituído.
Se misturou em meio as milhares de cabeças de
pessoas que passavam pela rua, e como em um filme, sumiu do local. Sem aquele
peso todo que carregava quando estava vindo.
Há quem diga que era a flor que pesava demais,
ela vinha carregada de coisas boas demais.
Há quem diga, também, que era o medo de ter
sido substituído que quase o fazia andar para trás.
E, há, também, os que dizem que não era nem
uma coisa, nem outra. Que ele tinha corrido o mais rápido que conseguia para não
chorar ali na frente. Porque, afinal, todo mundo sabe que boys don't
cry...
A flor ficou lá no meio do passapassa de gente, perdida naquela imensidão de pés.
Como eu não vi o restante da história, fica só em sonho/pensamento/vontade mesmo.
27.11.08
sebastian, you're in a mess...
percebeu, eratarde
demais: sebastiantinha puxado o livro da prateleira,
sem
muito,ou nenhum,
cuidado edesarrumado tudo!
Como num
efeitodominó, foi
tudo desabando:os
romances se misturaram com as
ficçõescientíficas, que, por
conseguinte,caíram em
cima e esconderam,
devez, as obras consideradas
utópicas.
O fato é que,
mesmodepois de
ter arrumado essa confusão
toda,
olivro puxado não
era,exatamente, o
que ele esperava ser:
continha, apenas,
aparte teórica do
quevem a
ser um simulacro.
Percebe o tamanho
daencrenca?
Poisbem, perceba.
Sebastian
nãopercebeu.
É que ele ignorou
oaviso bem grande
escritona parede
atrás da prateleira, e, que, na verdade,o
confundia
mais ainda: PUTTHE BOOK BACK
ON THE
SHELF.
Se o aviso servia
paratodos os tipos
delivros, então,
isso
significa que a escolha nunca ia
sersatisfatória?
Não soube
responder
apergunta
formuladamentalmente.
Folheou, folheou,folheou,
folheou.
Depois,arrumou a prateleira da forma
que mais o agradava.Antes
de
sair, reforçou
a cor do aviso. Saiu numa
passada
só.
15.11.08
colhendo certezas
Ela se virou ainda a tempo dele poder olhar para as suas costas e contar os sinais espalhados pelo seu corpo. Essas coisas dela. Só dela. Não resistiu. A abraçou novamente, como quem grita desesperadamente para que ela permaneça.
E não é um permanecer de ficar ali, até o dia amanhecer e a noite voltar, não. É aquele ficar de não ir embora. Não ir embora. Ficar com ele e ficar para ele.
O abraço retribuído era a resposta que ele precisava.
Estava tudo bem.
Estar acordado por ela, estar por ela. Ou, ser por ela.
14.11.08
Hoje o samba saiu, procurando você
8.11.08
[mariposa de] sueño.
ele não sabia muito bem como foi que acordou com aquela frase feita na cabeça.
porque, parecia coisa de filme, daqueles waking life da vida: de acordo com o roteiro, ele acorda com uma frase estampada no breu que aparece quando ele se dá conta que está acordando mas ainda mantém os olhos fechados. (sabe como é, né?)
pois bem. é isso mesmo.
aí, ele abre os olhos, repetindo a frase mentalmente, sem muita energia ainda para tentar um movimento de boca, pega o papel que está na mesinha do lado da cama e escreve as palavras, como quem ainda não sabe bem o que está acontecendo ou o peso que aquilo tudo pode ter. na verdade, ele só intui qualquer significado besta, a princípio, e, por isso, resolve registrar tal acontecimento. é que, a gente sempre ouve por aí que fulano sonhou com o número que foi sorteado na megasena, ou que sicrano sonhou com um boi e apostou no jogo do bicho e levou uma grana danada, entre outras lendas urbanas, né?
então, ele fez isso. anotou com um rabisco rápido, em linhas tortas, sem se importar muito com a forma que escrevia. afinal, eram seis horas da manhã de um sábado, e ele tinha sido acordado por uma frase. uma frase. uma frase?
é, até aqui parece realmente um roteiro de um filme/curta ficção. quer dizer, qualquer coisa menos realidade.
quem é que acordaria com uma frase? as pessoas, aquelas que têm o sono leve, acordam com barulhos, ventos fortes, esse tipo de coisa quase-bruta-mas-não-tão-bruta-pra-não-ser-meio-abstrata-mas-também-nem-tão-abstrata-pra-ser-realmente-abstrata. mas uma frase?!?!??!?!
nesse meio tempo, seu coração já tinha começado a bombear sangue suficiente, a adrenalina já corria normalmente, tudo trabalhava. e ele não tinha mais como se refugiar no sono que tinha sido interrompido; isso já tinha se esvaído.
aí ele se virou, como que numa tentativa de ignorar aquilo que estava escrito no papel. virou as costas, fechou os olhos, puxou o lençol para mais perto e pronto, se jogou. se jogou mesmo, como quem se atira desesperadamente pra frente quando vai atravessar uma avenida movimentada e calcula de forma bem desajeitada a distância/velocidade do carro que está vindo, e se joga, achando que tudo está certo e que vai ocorrer do jeito que se pensou. mas se jogou onde?
se jogou no abismo que se formava dentro dele: parecia que tudo tava juntoemisturado numa via de mão única, que levava diretamente ao lado esquerdo do peito. não adiantava disfaçar. era isso mesmo. isso mesmo.
finalmente, quando resolveu se levantar, sentindo umas pontadas do lado esquerdo do peito, pegou o papel, uma xícara de café, caminhou até a janela da frente e leu em voz alta o que tinha escrito, meio com dificuldade, já que a letra não ajudava muito:
- eu tou com saudade.
só restou um riso. e dois, e três.
4.11.08
talvez(es)
A única coisa que ele disse foi que não tinha certeza de nada. Aliás, que não tinha certeza.
Assim, direto. Na lata. De uma vez. Em uma única tomada de fôlego. Como quem cospe um caroço de azeitona depois de tê-lo roído todo. Como quem diz: - Pronto, falei.
E, para quem assistia a cena, já era sabido. Ela sabia.
Era mentira. Mentira das piores; daquelas que a gente já sabe que não é verdade antes mesmo de ser palavra proferida/mentira consumada: o suspiro que a antecede a entrega de primeira. Porque, não é aquele suspiro proveniente de uma metralhadora de síncopes que costuma vir, por exemplo, quando a gente tem algo muito importante pra falar e não se sabe bem se vai agüentar a situação. Aí temos que inspirar a maior quantidade de ar que conseguirmos para ir em frente. Não, não era isso não.
Era daquele que vem parecendo fermento novo em massa de bolo: faz tudo crescer numa rapidez sem tamanho, e quando a gente vê, já está passando da borda, tomando um rumo inesperado e fazendo estrago pra tudo que é lado.
E, nesse meio tempo, tudo era um silêncio muito grande.
Onde já se viu uma conversa de silêncios?
Pois bem. Não se via. A única coisa observada no meio daquele buraco no qual se afundavam era algo tomando forma nas pupilas dela. E, não eram apenas olhos molhados, não. Ia além.
Não se sabe ao certo quando começou e porque tomou forma justamente nos seus olhos. Há quem diga que, enquanto as suas pupilas se dilatavam num par de olhos marinhos que não costumavam ser os dela, a boca tremia enquanto tentava balbuciar algo. Uma resposta, talvez.
Mas como, se não havia nenhuma pergunta a ser respondida por ela? Talvez quisesse saber por que ele não tinha certeza se queria ficar. Talvez tivesse buscando uma explicação antes de resolver piscar os seus olhos e deixar as lágrimas, que lá se acumulavam, deslizarem. Se desprenderem. Tomarem rumo.
Ou talvez tivesse escolhido não dizer nada de muito inteligível mesmo, pensando que o silêncio fosse a melhor maneira de compreensão.
Talvez tivessem atingido o ponto em que o silêncio basta. Ou que fosse a única maneira dela poder pensar direito. Tinha vergonha dele, por ele ser assim; tão fraco. Tão pequeno. Tão não tão ele.
O fato é que, junto a única lágrima que conseguiu se desprender, vieram, também, as únicas palavras proferidas ali desde o “não tenho certeza” dele e todo o silêncio que tinha comido, sugado tudo como uma areia movediça entre os dois.
- Eu tenho... certeza. Certeza que não quero ficar.
Dito isso, tomou o último gole da xícara de café que estava na sua frente, engolindo aquele líquido frio, talvez docemente amargo, ou, ainda, fraco demais para ser uma mistura formada por pó de café + água + lágrima salgada dos seus olhos marinhos.
Quando partiu, levou as mãos nos bolsos e a cabeça um pouco caída. A coragem pesava-lhe nos ombros.
Não olhou pra trás. Sabia que, se olhasse, podia deixar um pedaço de qualquer coisa ali, naquela qualquer coisa que ela nem sabia mais o que era. Partia inteira. Completa?
Mais na frente, hesitou.
Continuou andando, para longe.
Ainda bem que não esqueceu da lágrima com gosto de café antes de partir.
26.10.08
semente de vulcão
Não, não e não. Mil vezes não. Ele repetia copiosamente o mesmo monossílabo, que parecia ganhar intensidade e firmeza a cada repetição. Só parecia. Na verdade, o que Antoine queria era ser entendido. Mas como, se nem ele mesmo parecia se entender? Todos sabiam, inclusive ele, que ele era a própria definição de imprecisão. Não conseguia ser preciso: até nos seus rompantes de eqüidade, muitas vezes não sabia como proceder. Como, se o que ele mais fez durante esse tempo que costuma contar foi exercer essa tarefa? Não se sabe. Ou se sabe? É que, enquanto ele zelava pelo ‘justiça seja feita’, impondo-se a quase condição de balança libriana da qual não pertencia, era visível um carneiro colérico e inquieto quase pular dos seus olhos, esperando por uma liberdade que, devido a sua racionalidade, era quase um horizonte distante. E agora, como se já não bastasse todo o eco causado pelas suas palavras jogadas contra as paredes do corredor que levava a escadaria, ele agora escondia os olhos, como se soubesse que eles não cooperariam nem um pouco com a situação. Tudo errou.
- uma palavra quase sem sentido, um tapa no pé do ouvido
Ela assistia a cena pelo olho mágico do apartamento. Ela agora se banhava com as suas lágrimas, que pareciam pesadas demais para permanecer nos seus olhos, como fizeram quando ela resolveu dizer com todas as letras que ele era uma semente de vulcão. Semente de vulcão? De onde diabos ela tinha tirado isso? Não importa. O fato é que, como, senão por meio dessa figura de linguagem, ela poderia explicar tudo o que tinha acontecido para ele? Porque era tudo tão simples no começo. E que ela passou muito tempo buscando uma lógica para mantê-lo consigo. Sabia que isso não seria a solução das suas dúvidas, e sim, um alimento constante e voraz. Não importa isso também. Foco.Foco. Como conseguiu explicar para ele o que era uma semente de vulcão? Será que ele entendeu?
- um movimento, um traquejo forte
Tinha dito tudo o que pensava. Na verdade, tinha sido sincero. O que ele podia fazer? Se culpar? Não, não faria isso. Tinha sido verdadeiro com ela desde..desde sempre. Mas, porque agora sentia esse sentimento de preocupação que ultrapassava o querer bem? Será que ele trazia um pouco de culpa junto? Porque, se eu não fiz nada? Levei até onde deu. O barco tinha que acabar de queimar a gasolina em algum porto. Disso todo mundo sabe. Ela sabia que esse não iria muito longe. Mas, porque ela tinha que me falar tudo isso? Deixar tudo mais complicado? Será que não entende que as coisas podem ser fáceis como eram no começo? Eu sei que ela também acha isso..ela me disse que tudo era fácil no começo. Pior é que não consigo ter raiva dela. Por ela ser assim, digamos que, sem preparo pra esse tipo de situação. Sempre achei que a gente se entendeu de forma errada. Que esquisito isso. Sempre achei mas nunca disse. Deve ter sido que faltou. E porque ela me fala coisas que sabe que me deixam assim, meio com esse sentimento aí que eu não sei o que é ao certo? Por que ela veio dizer que eu era uma semente de vulcão? Ela arranja cada coisa...só ela. Só ela.
- era uma linha sem começo nem fim
Maria sabia bem o valor das suas palavras. Sabia ser forte na escolha delas. Uma das únicas coisas que aprendeu foi o manejo das benditas, e disso se orgulhava. Uma semente de vulcão. Tinha gostado disso desde a primeira vez que ouviu o nome nas ladeiras da cidade. É que ela costumava atribuir certas coisas a pessoas, objetos e lugares. As vezes achava que se ocupava demais nessa atividade, outras não. Gostava quando as pessoas perguntavam a ela o significado de tal coisa. E mais ainda quando se sentiam únicas devido a atribuição feita. Só que, quando disse para ele que ele era uma semente de vulcão, não obteve uma resposta. Na verdade, pode até ter obtido, mas não soube interpretá-la. Ou não quis. Vai saber de Maria.. o fato é que, ela acreditava que todo mundo carregava um vulcão dentro de si, daqueles sem datas previstas para erupções. Sim, sim, porque, vai saber quando a gente pode se apaixonar? Ou acordar cheio daquela tristeza que não se sabe de onde veio e como, se só o que você fez foi dormir? Pois bem. Somos todos vulcões prestes a explodir devido a quantidade de sentimentos que carregamos. Ponto um. Tinha explicado para ele, na verdade, desenhando tudo no ar, como se tentasse fazer com que ele percebesse como tudo era tão simples. Ele torcia no nariz, meio que querendo demonstrar que queria logo a parte objetiva da história. Pois bem. E porque semente de vulcão? É que, em meio a todas as erupções que ele tinha causado durante o tempo juntos, era quase impossível ter restado algo de bom. E, incrivelmente, o que tinha restado era uma semente. Sim, uma semente no meio da poeira.
- passado, risco e recorte se descortinaram
Sempre achei a Maria meio viajada. Mas gostava, ria até das suas idéias meio sem pé nem cabeça. Porque era engraçado em como ela acreditava nas coisas e como parecia feliz em compartilhar comigo isso. Era importante pra ela. Mas, confesso que as vezes não gostava dessa mania dela de falar tudo por meio de metáforas. E o pior: vir reclamar comigo depois, falar que não sabe nada de mim, que eu só confundo ela, não dou segurança, eticétera e tal. Se formos por uma análise mais fria e direta, dá no mesmo, não? Nem sempre as figuras de linguagem podem ser compreendidas por outra mente que não foi a que a criou. Mulher é assim mesmo, meio doida. Nem adianta tentar entender. Mas eu juro que ela passou dos limites quando disse que uma semente tinha restado no meio da poeira. Isso, pra qualquer homem, assustaria e significaria..bem, você , homem, sabe. Mas, eu sabia que não era isso. Nós sabíamos. Mas, por outro lado, nem quebrei minha cabeça pra saber o que era. É melhor cortar o mal pela raiz. A gente já viveu o que tinha que viver. Tchau, adeus, goodbye. Tava irritado com tudo isso já. Mas, porque diabos eu não conseguia deixar ela ir embora? Que porra acontecia comigo? Eu sei que é melhor assim, ela também sabe. E, em nenhum momento eu a pedi pra ficar. Não seria justo. Não seria. Não seria..Não. Não. Não.
- era uma estrada, muitas curvas tortas, quantas passagens e portas ali se ocultaram
Ela sabia que não tinha jeito. Que, devia ir embora e que, lá no fundo, queria ir. Mas, tinha medo de ser sozinha. Não é que ele fizesse companhia à ela, porque, na verdade, ele nunca esteve ao seu lado..completamente. E, pra ela, o que importava era o complemento, não a parte do todo. Era o todo e a parte. E, claro, ela sabia que era uma decisão difícil essa a se tomar, porque, o que mais a atormentava era a falta. A saudade. Essa palavra a assustava demais. Mas, remediado já estava. Since the beginning. Só não sabia como fazer isso. Alguém tinha lhe dito que sempre era difícil, só que as coisas se tornavam quase impossíveis quando era algo que a gente gostava e não queria que fosse embora. E aí, quando eles sentaram pra ter a conversa,ela precisou expulsar o dragão que estava do lado de dentro. Foi como uma bola de fogo, saiu incendiando tudo. Um misto de emoções, dores e dissabores. Mas, era preciso, não era? E, até a hora em que ele andou para a porta, sem olhar para trás, ultrapassou a linha divisória entre o dentro e o fora, e bateu a mesma, ela sabia que a tal da semente ia ficar lá. Ela tinha conquistado o seu espaço.
Aí Maria acordou, ainda sem vontade de abrir os olhos, como numa tentativa de prolongar o sonho que acabara de ter. Na verdade, queria ver até onde a sua cabeça poderia desdobrar essa história. Não se sabe bem se ela ficou triste por ter acordado aí, ou feliz, por ter visto que acordou justamente onde deveria ter acordado. O fato é que, a primeira coisa que fez, antes mesmo de abrir os olhos, foi abrir a boca e falar:
- a semente de vulcão é o amor, seu idiota. Ah, se é...
E aí, abriu os olhos e emendou o cher antoine, je suis vraiment desolé mais je ne peux pas partir avec toi.
25.10.08
Crônica de um Menino Só
O ruim era só ter que enxaguar as mãos tortuosamente todo final do dia, deixar a água cair na pontinha dos dedos para apagar o cabelo mal desenhado, os olhinhos pequenininhos e a boca meio sorridente dos vinte. Doía ter que destruir tudo isso. Esquecer as horas de conversa, as horas de preparo dos dedinhos, tudo, tudinho.
Esse esfrega, esfrega deixava tudo vermelho: suas mãos - da onde saia toda a força - seus dedinhos - que recebiam toda a força - e o seu rosto, também. É que ele morria de vergonha de ter que fazer isso com as únicas companhias dele. Parecia uma espécie de traição, isso dele. Esse não querer se apegar a ninguém.
Ah, como ele odiava essa sua característica; algumas vezes, deitado no travesseiro, depois de todo o procedimento do 'lave mãos', ficava se perguntando se isso era uma qualidade sua ou um defeito. Ficava olhando os dedos das mãos, e, assim, tendo eles completamente nus, os observava meticulosamente. Parecia que cada giro das suas mãos era um movimento calculado. Procurava afeição por aqueles dedos que, a única identidade que poderiam ter era a de seus dedos, dedos do menino só. Entretanto, ele bem sabia que nunca quisera - e não iria ser agora - se apegar a nada, inclusive a ele mesmo. E, pelo rosto vermelho de vergonha em cada noite que ele colocava fim no seu simulacro, se sabe que ele realmente considerava isso um defeito seu. Só não se sabe porque ele tinha escolhido viver nesse faz de conta...
O fato é que, por escolher o simulacro como estilo de vida, ele teve lá as suas recompensas: na sua mente - tão obtusa e pequena - não convivia nunca com a mesmice.
É bem verdade que, estando num estado crítico de simulacro da realidade, ele podia criar o que quisesse, na hora que achasse conveniente. Mas, sinceramente, ele foi apenas enganado pela mesmice da vida: escolheu viver a mesma coisa todos os dias, mudando apenas algumas etiquetas das coisas que ele mesmo fabrica. E quem é que, hoje em dia, está interessado em viver apenas com o que se fabrica?
Triste de quem passa a cantar o todo dia ela faz tudo sempre igual todo santo dia.
Afinal, se a gente vê todo dia como santo, porque deixar o todo santo dia existir?
24.10.08
até onde a vista alcança?
-
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vou com sonâmbulos e corsários, poetas, astrólogos e a torrente dos mendigos perdulários.
Cecília Meireles
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