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20.3.12

do amor.







porque era ela, porque era eu. e porque eram dois em um só, numa só força, energia e vontade, eles conseguiam ser.

na primeira vez, foi como um susto. surpresa boa. batida frenética do coração. ali estava ela, completando idade nova, em meio de um amontoado de gente. não ouvia nada. não via nada. só as luzes daquele lugar antigo, daquele recife antigo. procurava. procurava ele, procurava a sua presença. não fazia sentido sem ele. nada, nada fazia sentido. até que.. aquela blusa listrada, branca e azul, apareceu. uma sacolinha a acompanhava. uma bolsa. nela, o presente. o seu presente. ele não sabia que o maior presente estava ali, de branco e azul, andando compassadamente em sua direção, cabeça baixa, olhar tímido, sem saber como justificava a sua demora. presente? que presente? demora..? muito menos. ela nunca quis saber de nada disso. ela só quis saber do coração batendo pela boca e de todo o amor que ele despertou naquele segundo em que se fez presente. se fez o presente. e ali habitou a noite toda, ao seu lado. e foi assim que pediu pra noite não terminar, ela dormir com ele e prolongar o que jamais poderia terminar: o amor daquele momento.
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na segunda, já foi diferente, mas nem tanto. foi ali também, no mesmo lugar, mesmo espaço, numa outra festa. em meio a chuva, gente, suor, cerveja; em meio a um balcão, uma radiola de fichas, uma troca de olhares,encostados numa parede, surgiu uma declaração: foi um eu te amo limpo, límpido, sincero, gostoso. foi o mais bonito que qualquer um que tivesse ali poderia ter presenciado. foi debaixo de dois olhares amedrontados, sufocados pelo sentimento que pressionava em sair gritando, aos quatro cantos, esse amor desenfreado. foi o eu te amo mais lindo que todo mundo viu. foi o mais bonito que ela viu.
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na terceira, foi quase um momento de aflição; não foi no mesmo lugar não, mas era até parecido; tinha radiola de ficha, quintal, música, amigos... tinha gente importante, tinha vergonha, receio, medo de não ter atenção. é,ela tinha isso. e foi justamente, em meio a agitação do show do rapaz que cantava o amor no cotidiano, falando em miojo, tombo, e outras milhares de coisas, que a dança aconteceu. que o amor ali se mostrou. que a menina perdeu a vergonha e flutuou. se deixou levar pelo momento, pela emoção e apagou todos que ali estavam, tornando essa lembrança um caso de duas pessoas só. e quando voltou a realidade, todos estavam ali, admirados com o amor. até a mulher famosa bradou: - é, vocês são lindos juntos. e a menina, claro, encheu o peito de amor e se calou ali, ao lado dele, sorrindo sem pudor.
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a quarta? a quarta foi história de cinema, daquelas que a gente paga de novo pra ver todas as sessões que conseguir ir. porque mágica assim, só em cinema. dia dos namorados, mulher triste, sem notícias, aflita depois de uma briga, chora pensando que foi esquecida. tem medo dele não dar o devido valor, sonha em fazer tanta coisa nesse dia, curtir a vida com a sua companhia, aquele ao qual pertence o seu amor; só que as horas se arrastam, e nada acontece;o dia escurece, trazendo a noite junto... ela, que ja estava furiosa, se contenta com a idéia de um esquecimento. pensa no aborrecimento e só quer esclarecer as coisas. coloca todas as suas armas em jogo e se apronta para a batalha, esquecendo que nem sabia se o tabuleiro poderia, na verdade, existir. quando ele chega, todo afobado, ainda agoniado da correria do dia-a-dia, ela o olha com alegria mas disfarça o sentimento; ele, que não é besta nem nada, tinha preparado a surpresa mais linda que nem ela poderia imaginar no acontecido: uma caixinha simbolizava todo o esforço adquirido nesse tempo de convívio para surpreender a sua amada. ela olhava, admirada, aquele negocinho de madeira, onde tinha escrito 'abra se puder' e se perguntando se era necessário. ela, tomada pelo nervosismo, nao consegue abrir a caixa, mas ansiosa pelo que ali ele guardava. quando a abriu, não aguentou o choro. era tão grandioso que ela nao tinha palavras; era simples, lindo, perfeito. ele tinha feito tudo o que ela gostava: vales ali dentro de diversas coisas que ela amava, mas um, em especial, era o que mais importava: aquele que tinha escrito eu te amo no fim da caixa. ele se apressou logo a dizer que esse nao tinha data de validade. e ela, respirou aliviada, por ter o melhor companheiro de jornada. pediu desculpas por ter duvidado, mas no fim, ele tinha conseguido, ser o melhor namorado. foi o presente mais bonito que ela tinha recebido. a caixinha nunca mais abriu. ela guardou tão bem os vales para saber que eles não se expiravam, que agora o que ela mais queria era utilizá-los.
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e a última, sabe qual é? é aquela em que a surpresa é a palavra-chave. era fim de ano, época festiva. aniversários, casamentos, confraternizações. ela sempre queria estar com ele, a saudade a matava aos poucos. era dessas que precisava ver, beijar, sentir, amar ali, de ladinho. fm de semana sempre era fim de semana porque ele estava ali, com ela. isso era fim de semana. o amor era fim de semana. e foi, naquela noite, onde tudo o que ela sentia era saudade, vontade de ficar junto, dormir junto, amar junto, pegar nas mãos junto, que todos estavam ali, menos ele. ele, se preocupava em terminar um presente. em casa, cheio de coisas para terminar, nao percebeu que o verdadeiro presente para ela era ele ali, com ela. a companhia dele. o amor dele. e ela, que estava na festa, nao conseguia disfarçar a falta que ele fazia. nao ouviu o seu celular tocar. 1, 2, 3 vezes. quando resolve olhar a hora pra ir embora, vê tudoo que tinha perdido: ligações não atendidas e uma mensagem dele. o coração saindo pela boca, as mãos trêmulas de ansiedade, ela liga e se depara com quase uma briga: ele, já tinha desistido da surpresa. ela, triste, argumenta, ainda sobre o efeito da surpresa. triste, desliga o telefone. 15 minutos depois, o carro chega. ele não tinha desistido. ele surpreende. sempre. ele entende, ele aceita, ele se dobra em mil. ela, extasiada, nao sabe se beija, se abraça, se agradece pelo presente. o aniversário era de outra menina, mas quem tinha o maior e o melhor presente era ela: ele.

porque? porque era ele; porque era eu.


e porque eram assim, ela poderia, ainda falar sobre aquela vez onde ela adormeceu de tanto chorar em meio ao seu abraço, que calava o soluço; ou aquela vez onde, no corredor do hospital onde a sua mãe estava, ele a abraçou e apertou a sua mão tão forte que ela sentiu que ali era a sua moradia; ou, ainda, quando escolheram passear, livres, pelas ladeiras de olinda, escolhendo o futuro juntos, o lar juntos, a vida juntos; ou, também, poderia contar sobre o dia em que a perda dele foi tão grande que ela chorava de dor pela dor que ele sentia, ali, encolhidinho no seus braços; ou, ainda, aquele abraço de manhã, antes de levantar, só pra confirmar que ele está ali, com você, por você, para você.
cinco eu te amos. cinquenta eu te amo. quinhentos eu te amo.

ad infinitum...


13.4.09

;


Era alto, magro e chamativo. Não desses que a gente espera ser rodeado de garotas, o mais estiloso na dança e a pessoa que mais faz amizades em lugares pouco prováveis para o contato de desconhecidos - não, não; passava longe disso.

Eu nem sei o que acontece. Ele ali, enconstado no balcão; copo sobe, copo desce, em movimento único, mão única, sentido único - era mestre nessa arte. O cheiro forte do aguardente que preenchia o copo convidava quem estivesse ali, próximo à cena. Esta que se repetia religiosamente - mesmo local, mesmo horário, fins de semana ímpares ou pares, ou, ainda, ímpares e pares - afinal, quem é que gosta de ser previsível, não é mesmo?

O fato é que ele era mesmo o que a gente podia tachar de, de quê mesmo? Chamativo? Atrativo? Convidativo? Enfim, ninguém quer se perder em meio a sinônimos. Chamativo; é isso mesmo: chamativo. Cabelos cacheados, loiros e um tanto bonitamente esquisitos; é que eles eram de um amarelo tão ofuscante que era impossível não se notar. Uma barba ora ruiva, ora castanha. E pode, pode? Sei se pode não, só sei que era: assim mesmo. A gente ficava na dúvida, achando que ele fazia de propósito. Mas não, não: ele não cultivava o hábito de se pintar não - pintar cabelos, clarear a barba, sei lá mais o quê, né? É que quem acompanhava o vai-e-vem do copo de aguardente entre o balcão e a sua boca percebia as unhas bem cuidadas, as mãos bonitas e aparentemente macias, que combinavam perfeitamente com o seu tom "roseado" - é melhor utilizar aqui perfeccionista ou cuidadoso? Sei não, vai ver é os dois, ou falta muita coisa de cada um ou sei lá o que; não sou perfeccionista nem cuidadosa a ponto de ler entrelinhas...

Tinha o hábito de se encostar no meio do balcão, pegar o copo com quatro dos seus dedos e se envergar sobre ele depois de um gole, parecendo decidir ali, naquele momento, para qual dos lados iria olhar primeiro: esquerda ou direita? Eram tantas decisões a serem tomadas - definitivamente ele não era uma pessoa decidida : quem é que fica em dúvida entre olhar primeiro para um lado e depois para o outro? Ele, só ele mesmo.

Independente do movimento primeiro, sempre voltava o olhar para o copo de aguardente: esse merecia a sua total atenção. Engraçado, né? Parecia mais uma relação fundamentada na atenção recíproca que um devotava ao outro: o copo de cachaça ali, sempre o aguardando-o; ele ali, sempre o procurando. Já parou pra perceber que o sempre é palavra chave nisso tudo? Pois é, perceba, meu filho. Porque logo ali, quando eu completar o meu relato, você vai entender a importância do sempre. Vá por mim, vá...

Voltando à questão: a gente nunca sabia o que mais chamava nele: se era aquele jeitinho envergado, envergonhado, com os ombros retraídos, de quem pega o copo certo do que vai fazer, refutando, assim, o sempre do indeciso destinado à ele anteriormente; ou se era quando aquele seu tom "roseado" se saturava justamente quando a gente ousava ir de encontro àqueles seus olhinhos miudinhos, que pareciam te convidar a uma possível aproximação - o que, "sinonicamente", seria perfeito para o fato dele ser convidativo, ou, melhor, chamativo.

Sei lá, desisti de entender a razão, circunstância ou o porquê de eu ter parado justamente naqueles olhinhos esverdeados e ter aceito o convite de visitação e quiçá, permanência. É que quando ele resolveu pedir um trago do meu cigarro, naquele mesmo balcão de sempre, com o mesmo copo de aguardente que estava sempre na sua frente, enquanto eu me preocupava em desenhá-lo mentalmente, a gente percebe que o sempre só existe nele na forma de elemento inovador. Elemento inovador? Pois é. Prestou atenção no sempre? Pois bem: seja uma cachaça nova, um dedo a mais no copo, a barba mais rala, há sempre o tal do elemento inovador.

Mas ei, peraí...quem é o elemento inovador nessa história toda? Será o cigarro? Será eu? Cigarro? Eu? Cigarro, eu, cigarro,eu, eu, cigarro, cigar...

Ok, isso não importa. Ele conseguiu chamar a minha atenção. E a sua também. Peraí que tá na hora de ir conferir a inovação da noite: minha carona pro bar chegou..adivinha quem é?

12.3.09

daquelas histórias de que o inferno são os outros e outras coisas mais

Exorcizar demônios: é isso que a gente passa uma vida inteira para aprender ou, na melhor das hipóteses, arriscar saber. Aí, o discurso do balbuciar alemão, tomar sorvete e andar de bicicleta ao mesmo tempo ser a coisa mais difícil do mundo não faz muito sentido não. Complicado é a gente rejeitar de vez, sem risco de volta, desvio de rota ou retorno de caminho esse tipo de habitante.
Não saberia dizer a você - você mesmo que se encontra agora, aqui, lendo isso - quando a gente aprende, como acontece esse processo e o saldo de cicatrizes que essa remoção pode causar. Alisamos espinhos até quando não o sabemos: as necessidades humanas precisam disso, faz parte da dinâmica da gente - aprender, desde cedo, a crescer com os benditos.
Confesso que os embates vão se tornando cada vez mais constantes; são aproveitáveis, até. Mas cansam. Estafam. Maltratam. E não falo pelas cicatrizes que vão aparecendo não; cicatriz é marca que traz lembrança, e lembrança só existe se a gente permitir. Falo da cobrança existente a cada nova luta, a cada soada do gongo, a cada espera pelo resultado e, por muitas vezes, pela sua extrema necessidade de força quando é preciso lutar.
Falo de coragem, de necessidade de mudança, de descamação do camaleão, do pêlo crescente de um filhote, da renovação das folhas de uma árvore. Daquela mudança que vem aos poucos, aos pingos; quase imperceptível, microscopicamente observável, mas que traz consigo a coragem para gerar o que seria um começo de confiança em sí próprio, para, a partir daí, algum dia, levar a gente a confiar nos outros e nos seus demônios. Afinal, o inferno não são os outros, o inferno não é a gente; somos todos mapas-mundi habitáveis, também, por demônios. Aprendamos com eles seja lá o que for - expulsá-los, maltratá-los, alimentá-los, [...]

14.2.09

expectations







Quem criou você fui eu. Assim, como quem acredita que você seria uma boa morada, um descanso particular.
Quem criou você não devia saber o gosto do mistério;
mãos trêmulas
dor de cabeça alucinante
olhos marejados
coração acelerado, palpitando da garganta até a boca do estômago
frio nas entranhas
caçamba de gelo na ponta dos pés
olhar distante
perdido por aí.
Não, não, não; quem criou você fui eu.
alimento, carinho, atenção. Ouvi tuas palavras, quando você vinha, quase imperceptivelmente, susurrar no meu ouvido meia dúzia de sensações. E todas elas conflitantes.
Por isso aprendi a ser assim, oito ou oitenta. dez ou cem. sete ou setenta. todo o conjunto que você julgar necessário. E você veio uma, duas, três, mil vezes até mim. E, todas essas vezes, eu nunca te mandei embora, sempre te dei abrigo. E, toda vez que eu morria um pouco, era você quem me matava. Tripudiava, gritava aos quatro cantos da minha cabeça quadrada que você tinha passe livre ali e que eu nada podia fazer a respeito disso, afinal, quem criou você fui eu.
é, expectativa, quem criou você fui eu.

4.1.09

da série gente como a gente, número 2.



o bom é quando as letras deixam apenas de ser
fonemas unidos entre si para darem espaço à sentidos maiores. coisa difícil. nem
sempre as pessoas conseguem enxergar o que há por trás das palavras, o que as
rodeia, você faz parte de um círculo raro.único. apenas deixar fluir frases,
para você, é fácil, mesmo que para trazê-las à tona sejam necessários anos de
amizade intensa, de conhecimento mútuo, o mais difícil e mais gratificante é ver
você seguindo em frente, se [re]construíndo aos poucos, aos segundos,
tentativas.só quem conhece um pouco do teu avesso sabe que chegar a este ponto,
encontrar-se nesse meio é algo novo, assustador. mas te digo, com plena certeza
e alegria, o teu caminho apenas começou, é que tudo, no final, faz parte do teu
show.
eu amo você. [Clareana - 29/08/08]


dois minutos. cinco minutos. dez minutos para tentar arranjar as idéias e poder, assim, falar dela. mas como se fala de alguém que você conhece tão a fundo mas que, por isso mesmo, tem receio em mostrar essas particularidades que custaram tanto a aparecem para todo o resto das pessoas? Podem me chamar de egoísta, do que for, mas, taí, essa eu não consigo dividir não. é mais forte que eu, esse meu medo de perder as pessoas das quais eu deposito tanta confiança, amor e tudo de melhor que há nessa vida. não, minah gente, desse medo eu não quero me livrar nunca.


e, pra falar dela, a gente precisa fechar os olhos e imaginar uma pluma, daquelas bem cheias, bonitas, daquelas que dá gosto de se ver; branca, azul, amarela, a cor não importa - ela sabe ser arco-íris. para os dias tristes, ela se veste de um preto reluzente; para os dias alegres, o amarelo é sempre a escolha dela; nos dias melancólicos, ela se faz cinza claro, cinza escuro, depende do horário. os dias alegres? ela é todas as cores: tudo misturado, do jeito que ela gosta. inclusive, a idéia do ser tudojuntoemisturado faz parte disso: ela foi uma das pessoas que me ensinou isso, me ensinou ser assim.


a mão estendida, a lágrima que só desce para acompanhar a minha, o riso de "tá tudo bem", o abraço de "já passou", a alegria de deitar num dos bancos do parque mais bonito da cidade ao som da orquestra sinfônica e acompanhar a cadência das luzes, só a gente sabe o que significa. só a gente sabe, também, o que significa transcender a palavra amizade: só a gente sabe.


e é por essas e outras que toda vez que eu paro para escrever sobre ela, as palavras ficam com vergonha e se escondem, com medo de serem tidas, depois, como escolhas erradas ou pequenas demais. aí eu fico só no sentimento, amando e querendo bem e estando aqui sempre, estendendo a mão, abraçando, chegando junto e defendendo, enxugando lágrimas, causando risos e entendendo silêncios. porque, mais do que ninguém, eu sei que ela sabe me entender; eu sei que ela sabe que, quando não há silêncios desconcertantes entre duas pessoas, é sinal de que as almas delas se reconhecem. e é isso que eu espero dessa minha vida: esse caminhar de almas até quando a gente fizer 100 anos, sambando e ouvindo cartola, cantando o quanto a vida é bonita, com um copo de cachaça nas mãos e a alegria de ter tido, pelo menos, 85 anos de memórias juntas. eu amo você.



27.12.08

tchibum nas emoções

Era toda essa coisa de mergulhar num abismo profundo, de braços abertos, cabelos esvoaçantes, vento no rosto e olhos fechados - que é para não afugentar as expectativas - que fazia com que ela acordasse suada e num pulo só da cama. Tinha os cabelos colados na cara, a respiração acelerada, o coração descompassado e uma falta de ar que não chegava a ser sufocante, mas, que assustava, assustava.

Esse medo descabido e latente das emoções que a atormentava justamente como era quando ela tinha dez anos e tinha que subir numa árvore qualquer ou escalar um muro para acompanhar a brincadeira das outras crianças. Acompanhar, ela acompanhava; de olhos cerrados, dentes trancados, força motora a 100% e pensamento no anjo da guarda, única oração que conseguiu aprender mesmo. E agora, tudo voltava à cena: aquela sensação de desespero e angústia pela negação do presente e os quereres de um após tudo isso, que sabe-se lá se tem futuro denominar isso de futuro, entende? Entende.

Aí, ela levantava e ficava em frente à cama, como quem tenta refazer tudo dentro das suas possibilidades, no caminho das linhas da palma da sua mão, na cadência normal dos seus passos. Suavemente, ela recria a oportunidade perdida minutos antes: dá um tchibum na sua cama, dá um tchibum nas suas emoções. Afinal, a madrugada ainda estava ali, bonita, reinante, só esperando a hora certa para que ela voltasse a acordar do mesmo sonho, e, mais uma vez, fizesse a sua escolha.

Ela? Dessa vez, escolheu entrar no acaso e amar o transitório. Sim, Carlos Pena Filho, entrar no acaso e amar o transitório.

22.12.08

baby, i love you




Tenho uma teoria acerca da importância da música nas nossas relações do cotidiano: para mim, uma relação só existe se ela tiver a sua música própria, aquela que serve de trilha sonora, que toca involuntariamente na sua mente quando a rádio sintoniza tal pessoa ou tal estação que te faz lembrar esse certo alguém.

Pronto, é disso mesmo que eu quero falar hoje, porque eu, ultimamente, ando gritando, escrevendo, assim, no ar, como uma doida, para quem passa na minha frente e é atingido, ferido, zapeado, lombrado ou chamado por tudo isso. Chego a parecer uma doidamaluca quando paro e jorro alguns versos de canções, meio desajeitadamente e, até, timidamente, ora em forma de cantoria, ora como uma leve e doce poesia: e quem recebe, pelo menos até hoje, tem reparado na [real] importância disso.
Não é que cada um tenha que ter um numerozinho presente naquela escala que a gente fica rodando o botãozinho atrás de uma boa freqüência não; o que eu quero deixar claro é que, justamente, são poucas as pessoas que têm essa estação marcada, decorada, entre os números principais da rádio da nossa mente.
Tenho uma música para cada um dos meus amores cultivados, sejam eles amores constantes, amores clandestinos, desamores ou eternos. E é de se impressionar como a freqüência é sempre fantástica!
O samba é, geralmente, dos desamores: amargura, cerveja, saudade e boas lembranças fazem com que ele toque na vitrola da gente e remeta a algum dos amores citados. As canções mais antigas, que a gente guarda nas estações chamadas clássicas, são as que nos lembram aqueles momentos que outrora estavam aqui, quase que na janela da gente, como aquela fazenda antiga e os violões, mas que hoje fazem parte de um passado cheio de Belchior, Benito de Paula, Clube da Esquina, O Grande Encontro e outras poesias que, inacreditavelmente, eu sei cantar desafinadamente e muito mal, mas não erro uma sílaba!
Os Novos Baianos, Gil, Gal e seus Doces Bárbaros, a sangria da Ave, a transcendência do Harrison, o amor transbordante do Chico, do Caetano, de tantos outros que fazem com que a gente grite, a gente pule, a gente se abrace, cante na janela do carro, com o vento batendo na cara, dance e dance e dance e nunca se canse é outro ponto importantíssimo: esses daí fazem parte dos amores constantes. Tocam todo dia, como quem já sabe que toca na mesma freqüência pulsante do coração.
As trilhas de filmes? Bem, essas, com certeza, viram as trilhas dos clandestinos: platônicos, efêmeros, suspirantes, seja lá a denominação que a gente quiser atribuir à isso, é fato que, de amores clandestinos, o filme da nossa vida anda cheio, não é? Só que, aí parece mais aquele enígma do "copo metade cheio ou metade vazio?", porque, se a gente parar para analisar, quantos rolos de filmes são precisos pra caber toda a sua vida? Vários, eu te garanto. E, por isso, meu amigo, te falo aqui, agora, sem nenhuma cerimônia: amores clandestinos são precisos, preciosos e (im)previsíveis nessa vida da gente.
Pra terminar, e os amores eternos? Esses são como as músicas das letras bonitas, que fazem a gente chorar cada vez que repetimos ela: ela consegue criar uma lágrima diferente para cada sintonizada na estação. São as músicas do João Bosco, com certeza. São as músicas que a gente sabe cantar todinha, sem pestanejar, e que, quando canta, sintoniza o pensamento em alguém. É como ouvir o bêbado e o equilibrista e não sentir um arrepio; não gritar o baby, i love you e cantar você precisa saber da piscinada margarinada Carolinada gasolinade
mim
colocando a cabecinha meio de lado, tentando sentir a música.
Minha gente, essa trilha desses amores eternos é, simplesmente, a trilha dessas nossas relações. Simples assim.

12.12.08

da série gente como a gente, número 1.


Quando a gente vê esses olhinhos pequenininhos, parecendo dois risquinhos que se apertam muito, mas muito mesmo, como que tentando segurar um absurdo de ternura e leveza que eles exalam, é quase impossível não se ver num sorriso quase nascente na gente; é que eles parecem refletir o que encontram pela frente, assim, meio sem cerimônia nenhuma.

Por que, na verdade, todo mundo sabe que o sorriso é a principal saída das nossas necessidades - é a síntese de todo um processo interior, resultante de duas etapas anteriores: a tese e a antítese. A tese a gente pode imaginar como a parte racional que pulsa dentro de nós (ou todo aquele encadeamento de pensamentos considerados lógicos, sensatos e previsíveis)...uma tentativa de fazer as palavras cruzadas do lado de dentro da gente.

A antítese? É, simplesmente, na melhor das hipóteses, o inesperado, asfixiante; é o magma, a semente, o engodo, o que lateja descompassadamente em todas as partes - inclusive em meio à tese.
Ora, pois, o sorriso não poderia deixar de ser a parte pulsante que resulta dessa mistura toda: é um depois.E não um depois que se resume a futuro; é um depois de resultado, de recompensa. É sorriso e pronto, chega.

E, assim como os seus olhinhos que exprimem melhor que os de ninguém aquela máxima de que "os olhos são a janela da alma", o sorriso dele traz um não-sei-o-que-bom-demais. Sabe ser terapêutico. Abraços que abarcam o mundo, o instante ali, quase fotografado pelos olhos brilhantes e cheios de "quero muito mais, sempre, da vida"; é disso que eu falo, que eu grito, que eu exalto, que eu admiro, que eu chego a me calar para pensar na quantidade de coisas que eu preciso dizer, apontar, mostrar mas que ainda não sei falar sobre. Mas, de certo, saberei. Quando a gente percebe gente assim, como a gente, não costuma deixar ir passear, ir embora, ir muito longe não. A gente sente falta e quer ali, num potinho, se puder... pra sacudir, apertar, amolengar, ou, só para sorrir mesmo.

Kundera, Piaf, Devendra and ribbons around the fumes...era só disso que eu tava querendo falar esse tempo todo, era só de sorrisos maiores;
só de gente como ele; era só de gente como a gente.
(texto prometido para ele, tinha que ser o primeiro.)

29.11.08

boys don't cry

Foi só porque cada inspiração de ar ia se tornando
fatigante, que ele resolveu tentar acabar de vez com toda essa
expectativa.
Foi ao lugar marcado. Cambaleante, como quem anda
carregando um peso amarrado aos seus calcanhares. Cada passada era um esforço
tremendo para conseguir se manter em pé - manter a sua cabeça reta,
"altiva".
Quem observava a cena de longe, não entendia esse
caminhar de passos duros: não era nenhuma ladeira a rua, oras...
Finalmente, chegou ao seu destino. Não sabia se
ficava aliviado ou desesperado. Puro impulso esse de querer chegar lá nessa
rapidez. Nem deu tempo de se preparar, pensava ele.
Quer dizer, pensava em tanta coisa que os únicos
pensamentos inteligíveis que conseguiu captar antes que seu olhar cruzasse com o
dela foram estes mesmo. Só. Depois, tudo virou breu.
Fitou aquele olhar que parecia ter imposto um muro
de concreto entre duas realidades[agora]diferentes, mas que outrora, já
foram uma só.
O muro, na verdade, ele pôde enxergar visivelmente
após os 5 segundos que demorou perdido naqueles olhos: era o novo
rapaz.
O que fazer? O que dizer? O que
olhar?
Não sei dizer no que ele
pensou.
Apenas abaixou a cabeça, como quem sabe
que não podia mais tentar plantar a florzinha que carregava na mão em cima
do muro dela, em cima do muro deles. Ele tinha sido substituído.
Se misturou em meio as milhares de cabeças de
pessoas que passavam pela rua, e como em um filme, sumiu do local. Sem aquele
peso todo que carregava quando estava vindo.
Há quem diga que era a flor que pesava demais,
ela vinha carregada de coisas boas demais.
Há quem diga, também, que era o medo de ter
sido substituído que quase o fazia andar para trás.
E, há, também, os que dizem que não era nem
uma coisa, nem outra. Que ele tinha corrido o mais rápido que conseguia para não
chorar ali na frente. Porque, afinal, todo mundo sabe que
boys don't
cry
...



A flor ficou lá no meio do passapassa de gente, perdida naquela imensidão de pés.
Como eu não vi o restante da história, fica só em sonho/pensamento/vontade mesmo.

27.11.08

sebastian, you're in a mess...

Quando
percebeu, eratarde
demais: sebastiantinha puxado o livro da prateleira,
sem
muito,ou nenhum,
cuidado edesarrumado tudo!
Como num
efeitodominó, foi
tudo desabando:os
romances se misturaram com as
ficçõescientíficas, que, por
conseguinte,caíram em
cima e esconderam,
devez, as obras consideradas
utópicas.
O fato é que,
mesmodepois de
ter arrumado essa confusão
toda,
olivro puxado não
era,exatamente, o
que ele esperava ser:
continha, apenas,
aparte teórica do
quevem a
ser um simulacro.
Percebe o tamanho
daencrenca?
Poisbem, perceba.
Sebastian
nãopercebeu.
É que ele ignorou
oaviso bem grande
escritona parede
atrás da prateleira, e, que, na verdade,o
confundia
mais ainda: PUTTHE BOOK BACK
ON THE
SHELF.
Se o aviso servia
paratodos os tipos
delivros, então,
isso
significa que a escolha nunca ia
sersatisfatória?
Não soube
responder
apergunta
formuladamentalmente.
Folheou, folheou,folheou,
folheou.
Depois,arrumou a prateleira da forma
que mais o agradava.Antes
de
sair, reforçou
a cor do aviso. Saiu numa
passada
só.

23.11.08

como eu me apaixonei


Dias atrás, presenciei uma amiga agoniada entrar na sala, batendo porta, sentando, parecendo estar sufocada de coisas. Ela ia ficando cada vez mais vermelha, os olhos bem marejados, totalmente marinhos. Até que não se agüentou e começou a chorar e a contar o que tinha acontecido.
Assisti a cena admirada. Não pela agonia dela, e sim, pela capacidade de externar sentimentos.
É que, assim, eu nunca fui muito boa nisso não.

Mainha conta até hoje que, quando eu era pequena, aprontava as maiores coisas do mundo, e, na hora de apanhar - quando o caso era realmente sério, como foi quando colei chiclete na franja do meu irmão e cortei a metade dela - eu corria e escolhia uma sandália bem acolchoada, aquela que eu achasse que ia doer menos. Essa era a forma de eu tentar me safar 'inteligentemente' da situação sem deixar de receber a minha punição - é que minha mãe sempre fez questão que eu e meu irmão tivéssemos noção de
responsabilidade e consequências diante dos atos. Aí, claro, eu sempre pegava a mais 'molinha', sabe?
Nunca na minha vida pegaria uma sandália de couro. ATÉ PARECE.
E aí, apanhava sem derramar uma lágrima. Parecia coisa de criança ruim mesmo: trancava os dentes, prendia todo o sentimento do lado de dentro e ia ficando vermelha, como quem sabe que os sentimentos pareciam querer escapar por todos os buraquinhos, todos os poros. E aí, ficava concentrada nisso. Só nisso.
Apesar de eu acreditar, por muito tempo, que essa era uma das minhas qualidades - tinha aprendido a sofrer as consequências dos meus atos - sabia que, na verdade, isso era mais para mascarar um defeito que considero tremendo: meu orgulho. Sempre fui orgulhosa, sempre.E, por muito tempo, quis acabar com isso. Tinha vergonha as vezes, porque isso me atrapalhava demais quando eu queria externar certas coisas. Esse orgulho impedia.

De uns tempos pra cá comecei a perceber que venho mudando aos poucos, aos pingos. Tive um hiato imenso que me impossibilitou de escrever o que eu queria, quando eu queria, como eu queria. E eu fiquei agoniada, com tudo preso aqui dentro. Porque as palavras eram a única coisa que me faziam externar tudo. Sempre foi assim. Orgulho perto delas era apenas uma palavrinha a mais do dicionário, bem insignificante diante de todo o conjunto das outras.

Se a gente não consegue dizer o que tem para dizer ou o que gostaria de dizer, como tudo fica? já parou pra pensar nisso?
Por isso que, quando paro para pensar no quanto gosto de escrever, eu fico feliz só em pensar nessa minha história de como me apaixonei pela escrita.



P.S.

Perceba na foto acima a franja do meu irmão cortada. E perceba, também, o tamanho da criança que ainda aprontava - leia "eu" aqui. :)

20.11.08

!





- Lua*, com qual dos beatles você quer casar? Paulo, George, João ou Ringo?

- Rindo??

- Rindo não, luana, RinGGGGo. Quer casar com ele, é? Porque?

- Que nome doido (!) hahaha ringo, ringo, hahaha

- ok, então você quer casar com ele!

- eu não! oxe! eca!

- e porque não, criatura?

- menino é chato, feio e solta pum!

- E tu?

- eu não, eu não.

- seeeeeeeei... hahaha

- pára thais, sua chata e feia!


aí ela saiu arretada comigo.



(só pra descontrair um pouco isso aqui! é que luana é uma criança de quase 5 anos meio diferente das outras. a prova disso? enquanto todas pensam que o papai noel mora na esquina da rua, ou no pólo norte, segundo lua, ele reside no Texas e vai trazer para ela dólares de presente de natal. Só não pode questioná-la sobre o que vem a ser o Texas e para que servem dólares, que ela fecha a cara, te chama de feia e chata e sai. é que ela se invoca rápido quando não tem uma resposta pronta. haha)




15.11.08

colhendo certezas

É que ele adorava quando ela o abraçava assim, meio sem jeito, mas, ao mesmo tempo, cheia desse seu jeitinho desajeitado. Esses abraços o faziam ter a certeza de que ele queria estar acordado por ela, estar por ela, ou, ainda, ser por ela.

Ela se virou ainda a tempo dele poder olhar para as suas costas e contar os sinais espalhados pelo seu corpo. Essas coisas dela. Só dela. Não resistiu. A abraçou novamente, como quem grita desesperadamente para que ela permaneça.

E não é um permanecer de ficar ali, até o dia amanhecer e a noite voltar, não. É aquele ficar de não ir embora. Não ir embora. Ficar com ele e ficar para ele.

O abraço retribuído era a resposta que ele precisava.
Estava tudo bem.









Estar acordado por ela, estar por ela. Ou, ser por ela.

14.11.08

Hoje o samba saiu, procurando você

Foi de repente que o cigarro queimou os dedos dele. Tinha esquecido que, de uns tempos para cá, mantinha um ritual sagrado todo dia, nessa mesma hora, nesta mesma janela.
De uma maneira nem um pouco desajeitada, com um cigarro na mão, se encostava meio de lado na janela que dava para a rua principal. Meio de lado é eufemismo, já que, na verdade verdadeira mesmo, ele se virava completamente para a direita, como quem quer evitar o lado esquerdo de qualquer maneira. Fumava seu cigarro calmamente, como se estivesse matando o tempo, como quem espera algo junto de alguém que só pode te oferecer o silêncio e, visto isso, uma falsa promessa de companhia. Era mais ou menos assim o seu ritual.
As vezes, até que se distraia com alguma coisa: o carrinho de cds piratas, a mulata que passava rebolando em cima do salto alto, o garoto que descia a ladeira de bicicleta, ou algum conhecidovizinho que, sabendo que iria encontrá-lo ali, passava acenando e querendo puxar conversa.
Mas, a máxima atenção que poderia dar a alguém, seria um olhar sem um desvio súbito.
Havia nos seus olhos uma espécie de coisaestranha; sua mudez era a prova de que, definitivamente, ele carregava todo o peso da alma não nos seus ombros, e sim nos seus olhos.
Nos três meses que se passaram desde a sua vinda para esse sobrado, tinha saído do seu refúgio uma meia dúzia de vezes: algumas para comprar mantimentos, outras para caminhar estranhamente até a esquina e, logo em seguida, voltar para casa. A sua sorte era um amigo - seu único, aliás - que vinha toda semana conversar, trazer coisas que precisava e fazer companhia. Só.
Aliás, só era como o chamavam.
Alguns até arriscavam que ele era mudo; que uma espécie de mudez o atormentava. Ou uma gagueira. Sim, sim. Uma vez, correu um boato que ele gaguejava tanto, que resolveu parar de falar de vez, e, para evitar isso, acabou se isolando. Tinha gente que contava até que ele tinha inventado uma mentira e que o gato tinha comido a língua dele - essa as crianças detestavam. Ou então, falavam só que ele devia ter feito algo de muito ruim a alguém e tinha rejeitado a vida de vez.
Nisso eles tinham razão: ele tinha rejeitado a vida de vez.
A posição na janela não era proposital não: ele evitava ver o sol se pondo. Odiava ainda não ser forte o suficiente para conseguir vencer essa sua vontade de ver vida, mesmo que seja a dos outros. Foi aí que estabeleceu esse hábito de fumar na janela: só assim, uma vez no dia, poderia contemplar a vida como ela é, por um certo espaço de tempo - no caso, o tempo que o cigarro durasse.
O que se sabe é que, até aquela tarde em que o susto da queimadura do cigarro o fez derramar o seu copo de bebida bem em cima do cigarro caído no chão, causando o incêndio do seu apartamento todo, ele sempre soube esconder o seu mistério. Morreu ali, esperando alguma coisa que não se sabe bem o que era, a que horas chegaria, data, dia da semana, ano e todo o resto da documentação.
O acontecido serviu de pano para a manga de muitos boatos em toda a vizinhança: desde surto psicótico, tentativa de roubo + assassinato, até suicídio. Pois é.
Ainda tinham uns metidos a poeta que, sentavam ali na frente, e nas rodas de conversa, tentavam conquistar as mulatas da vizinhança fazendo versos sobre o estranho do cortiço e a sua morte vendo a vida passar pela janela.
Ah! e pensa que os sambistas deixaram barato? Na mesma noite em que ele morreu, no samba do bar da esquina só se ouvia
-
Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
-
Era a única maneira que eles tinham de reverenciar o desconhecido. É que agora todo mundo entendia a mudez dele: ele carregava ânsia demais nos olhos para ter forças, ainda, de falar. E de viver. Quem sabe?
-
O samba continuou até o dia amanhecer.

8.11.08

[mariposa de] sueño.

ele não sabia muito bem como foi que acordou com aquela frase feita na cabeça.
porque, parecia coisa de filme, daqueles waking life da vida: de acordo com o roteiro, ele acorda com uma frase estampada no breu que aparece quando ele se dá conta que está acordando mas ainda mantém os olhos fechados. (sabe como é, né?)
pois bem. é isso mesmo.
aí, ele abre os olhos, repetindo a frase mentalmente, sem muita energia ainda para tentar um movimento de boca, pega o papel que está na mesinha do lado da cama e escreve as palavras, como quem ainda não sabe bem o que está acontecendo ou o peso que aquilo tudo pode ter. na verdade, ele só intui qualquer significado besta, a princípio, e, por isso, resolve registrar tal acontecimento. é que, a gente sempre ouve por aí que fulano sonhou com o número que foi sorteado na megasena, ou que sicrano sonhou com um boi e apostou no jogo do bicho e levou uma grana danada, entre outras lendas urbanas, né?
então, ele fez isso. anotou com um rabisco rápido, em linhas tortas, sem se importar muito com a forma que escrevia. afinal, eram seis horas da manhã de um sábado, e ele tinha sido acordado por uma frase. uma frase. uma frase?
é, até aqui parece realmente um roteiro de um filme/curta ficção. quer dizer, qualquer coisa menos realidade.
quem é que acordaria com uma frase? as pessoas, aquelas que têm o sono leve, acordam com barulhos, ventos fortes, esse tipo de coisa quase-bruta-mas-não-tão-bruta-pra-não-ser-meio-abstrata-mas-também-nem-tão-abstrata-pra-ser-realmente-abstrata. mas uma frase?!?!??!?!
nesse meio tempo, seu coração já tinha começado a bombear sangue suficiente, a adrenalina já corria normalmente, tudo trabalhava. e ele não tinha mais como se refugiar no sono que tinha sido interrompido; isso já tinha se esvaído.
aí ele se virou, como que numa tentativa de ignorar aquilo que estava escrito no papel. virou as costas, fechou os olhos, puxou o lençol para mais perto e pronto, se jogou. se jogou mesmo, como quem se atira desesperadamente pra frente quando vai atravessar uma avenida movimentada e calcula de forma bem desajeitada a distância/velocidade do carro que está vindo, e se joga, achando que tudo está certo e que vai ocorrer do jeito que se pensou. mas se jogou onde?
se jogou no abismo que se formava dentro dele: parecia que tudo tava juntoemisturado numa via de mão única, que levava diretamente ao lado esquerdo do peito. não adiantava disfaçar. era isso mesmo. isso mesmo.
finalmente, quando resolveu se levantar, sentindo umas pontadas do lado esquerdo do peito, pegou o papel, uma xícara de café, caminhou até a janela da frente e leu em voz alta o que tinha escrito, meio com dificuldade, já que a letra não ajudava muito:


- eu tou com saudade.


só restou um riso. e dois, e três.

4.11.08

talvez(es)

A única coisa que ele disse foi que não tinha certeza de nada. Aliás, que não tinha certeza.

Assim, direto. Na lata. De uma vez. Em uma única tomada de fôlego. Como quem cospe um caroço de azeitona depois de tê-lo roído todo. Como quem diz: - Pronto, falei.


E, para quem assistia a cena, já era sabido. Ela sabia.


Era mentira. Mentira das piores; daquelas que a gente já sabe que não é verdade antes mesmo de ser palavra proferida/mentira consumada: o suspiro que a antecede a entrega de primeira. Porque, não é aquele suspiro proveniente de uma metralhadora de síncopes que costuma vir, por exemplo, quando a gente tem algo muito importante pra falar e não se sabe bem se vai agüentar a situação. Aí temos que inspirar a maior quantidade de ar que conseguirmos para ir em frente. Não, não era isso não.


Era daquele que vem parecendo fermento novo em massa de bolo: faz tudo crescer numa rapidez sem tamanho, e quando a gente vê, já está passando da borda, tomando um rumo inesperado e fazendo estrago pra tudo que é lado.


E, nesse meio tempo, tudo era um silêncio muito grande.
Onde já se viu uma conversa de silêncios?


Pois bem. Não se via. A única coisa observada no meio daquele buraco no qual se afundavam era algo tomando forma nas pupilas dela. E, não eram apenas olhos molhados, não. Ia além.
Não se sabe ao certo quando começou e porque tomou forma justamente nos seus olhos. Há quem diga que, enquanto as suas pupilas se dilatavam num par de olhos marinhos que não costumavam ser os dela, a boca tremia enquanto tentava balbuciar algo. Uma resposta, talvez.
Mas como, se não havia nenhuma pergunta a ser respondida por ela? Talvez quisesse saber por que ele não tinha certeza se queria ficar. Talvez tivesse buscando uma explicação antes de resolver piscar os seus olhos e deixar as lágrimas, que lá se acumulavam, deslizarem. Se desprenderem. Tomarem rumo.


Ou talvez tivesse escolhido não dizer nada de muito inteligível mesmo, pensando que o silêncio fosse a melhor maneira de compreensão.


Talvez tivessem atingido o ponto em que o silêncio basta. Ou que fosse a única maneira dela poder pensar direito. Tinha vergonha dele, por ele ser assim; tão fraco. Tão pequeno. Tão não tão ele.


O fato é que, junto a única lágrima que conseguiu se desprender, vieram, também, as únicas palavras proferidas ali desde o “não tenho certeza” dele e todo o silêncio que tinha comido, sugado tudo como uma areia movediça entre os dois.


- Eu tenho... certeza. Certeza que não quero ficar.


Dito isso, tomou o último gole da xícara de café que estava na sua frente, engolindo aquele líquido frio, talvez docemente amargo, ou, ainda, fraco demais para ser uma mistura formada por pó de café + água + lágrima salgada dos seus olhos marinhos.


Quando partiu, levou as mãos nos bolsos e a cabeça um pouco caída. A coragem pesava-lhe nos ombros.


Não olhou pra trás. Sabia que, se olhasse, podia deixar um pedaço de qualquer coisa ali, naquela qualquer coisa que ela nem sabia mais o que era. Partia inteira. Completa?


Mais na frente, hesitou.


Continuou andando, para longe.


Ainda bem que não esqueceu da lágrima com gosto de café antes de partir.

26.10.08

semente de vulcão

- era uma voz, um vento, um sussurro, relâmpago, trovão e murro

Não, não e não. Mil vezes não. Ele repetia copiosamente o mesmo monossílabo, que parecia ganhar intensidade e firmeza a cada repetição. Só parecia. Na verdade, o que Antoine queria era ser entendido. Mas como, se nem ele mesmo parecia se entender? Todos sabiam, inclusive ele, que ele era a própria definição de imprecisão. Não conseguia ser preciso: até nos seus rompantes de eqüidade, muitas vezes não sabia como proceder. Como, se o que ele mais fez durante esse tempo que costuma contar foi exercer essa tarefa? Não se sabe. Ou se sabe? É que, enquanto ele zelava pelo ‘justiça seja feita’, impondo-se a quase condição de balança libriana da qual não pertencia, era visível um carneiro colérico e inquieto quase pular dos seus olhos, esperando por uma liberdade que, devido a sua racionalidade, era quase um horizonte distante. E agora, como se já não bastasse todo o eco causado pelas suas palavras jogadas contra as paredes do corredor que levava a escadaria, ele agora escondia os olhos, como se soubesse que eles não cooperariam nem um pouco com a situação. Tudo errou.


- uma palavra quase sem sentido, um tapa no pé do ouvido

Ela assistia a cena pelo olho mágico do apartamento. Ela agora se banhava com as suas lágrimas, que pareciam pesadas demais para permanecer nos seus olhos, como fizeram quando ela resolveu dizer com todas as letras que ele era uma semente de vulcão. Semente de vulcão? De onde diabos ela tinha tirado isso? Não importa. O fato é que, como, senão por meio dessa figura de linguagem, ela poderia explicar tudo o que tinha acontecido para ele? Porque era tudo tão simples no começo. E que ela passou muito tempo buscando uma lógica para mantê-lo consigo. Sabia que isso não seria a solução das suas dúvidas, e sim, um alimento constante e voraz. Não importa isso também. Foco.Foco. Como conseguiu explicar para ele o que era uma semente de vulcão? Será que ele entendeu?


- um movimento, um traquejo forte

Tinha dito tudo o que pensava. Na verdade, tinha sido sincero. O que ele podia fazer? Se culpar? Não, não faria isso. Tinha sido verdadeiro com ela desde..desde sempre. Mas, porque agora sentia esse sentimento de preocupação que ultrapassava o querer bem? Será que ele trazia um pouco de culpa junto? Porque, se eu não fiz nada? Levei até onde deu. O barco tinha que acabar de queimar a gasolina em algum porto. Disso todo mundo sabe. Ela sabia que esse não iria muito longe. Mas, porque ela tinha que me falar tudo isso? Deixar tudo mais complicado? Será que não entende que as coisas podem ser fáceis como eram no começo? Eu sei que ela também acha isso..ela me disse que tudo era fácil no começo. Pior é que não consigo ter raiva dela. Por ela ser assim, digamos que, sem preparo pra esse tipo de situação. Sempre achei que a gente se entendeu de forma errada. Que esquisito isso. Sempre achei mas nunca disse. Deve ter sido que faltou. E porque ela me fala coisas que sabe que me deixam assim, meio com esse sentimento aí que eu não sei o que é ao certo? Por que ela veio dizer que eu era uma semente de vulcão? Ela arranja cada coisa...só ela. Só ela.


- era uma linha sem começo nem fim

Maria sabia bem o valor das suas palavras. Sabia ser forte na escolha delas. Uma das únicas coisas que aprendeu foi o manejo das benditas, e disso se orgulhava. Uma semente de vulcão. Tinha gostado disso desde a primeira vez que ouviu o nome nas ladeiras da cidade. É que ela costumava atribuir certas coisas a pessoas, objetos e lugares. As vezes achava que se ocupava demais nessa atividade, outras não. Gostava quando as pessoas perguntavam a ela o significado de tal coisa. E mais ainda quando se sentiam únicas devido a atribuição feita. Só que, quando disse para ele que ele era uma semente de vulcão, não obteve uma resposta. Na verdade, pode até ter obtido, mas não soube interpretá-la. Ou não quis. Vai saber de Maria.. o fato é que, ela acreditava que todo mundo carregava um vulcão dentro de si, daqueles sem datas previstas para erupções. Sim, sim, porque, vai saber quando a gente pode se apaixonar? Ou acordar cheio daquela tristeza que não se sabe de onde veio e como, se só o que você fez foi dormir? Pois bem. Somos todos vulcões prestes a explodir devido a quantidade de sentimentos que carregamos. Ponto um. Tinha explicado para ele, na verdade, desenhando tudo no ar, como se tentasse fazer com que ele percebesse como tudo era tão simples. Ele torcia no nariz, meio que querendo demonstrar que queria logo a parte objetiva da história. Pois bem. E porque semente de vulcão? É que, em meio a todas as erupções que ele tinha causado durante o tempo juntos, era quase impossível ter restado algo de bom. E, incrivelmente, o que tinha restado era uma semente. Sim, uma semente no meio da poeira.


- passado, risco e recorte se descortinaram

Sempre achei a Maria meio viajada. Mas gostava, ria até das suas idéias meio sem pé nem cabeça. Porque era engraçado em como ela acreditava nas coisas e como parecia feliz em compartilhar comigo isso. Era importante pra ela. Mas, confesso que as vezes não gostava dessa mania dela de falar tudo por meio de metáforas. E o pior: vir reclamar comigo depois, falar que não sabe nada de mim, que eu só confundo ela, não dou segurança, eticétera e tal. Se formos por uma análise mais fria e direta, dá no mesmo, não? Nem sempre as figuras de linguagem podem ser compreendidas por outra mente que não foi a que a criou. Mulher é assim mesmo, meio doida. Nem adianta tentar entender. Mas eu juro que ela passou dos limites quando disse que uma semente tinha restado no meio da poeira. Isso, pra qualquer homem, assustaria e significaria..bem, você , homem, sabe. Mas, eu sabia que não era isso. Nós sabíamos. Mas, por outro lado, nem quebrei minha cabeça pra saber o que era. É melhor cortar o mal pela raiz. A gente já viveu o que tinha que viver. Tchau, adeus, goodbye. Tava irritado com tudo isso já. Mas, porque diabos eu não conseguia deixar ela ir embora? Que porra acontecia comigo? Eu sei que é melhor assim, ela também sabe. E, em nenhum momento eu a pedi pra ficar. Não seria justo. Não seria. Não seria..Não. Não. Não.

- era uma estrada, muitas curvas tortas, quantas passagens e portas ali se ocultaram

Ela sabia que não tinha jeito. Que, devia ir embora e que, lá no fundo, queria ir. Mas, tinha medo de ser sozinha. Não é que ele fizesse companhia à ela, porque, na verdade, ele nunca esteve ao seu lado..completamente. E, pra ela, o que importava era o complemento, não a parte do todo. Era o todo e a parte. E, claro, ela sabia que era uma decisão difícil essa a se tomar, porque, o que mais a atormentava era a falta. A saudade. Essa palavra a assustava demais. Mas, remediado já estava. Since the beginning. Só não sabia como fazer isso. Alguém tinha lhe dito que sempre era difícil, só que as coisas se tornavam quase impossíveis quando era algo que a gente gostava e não queria que fosse embora. E aí, quando eles sentaram pra ter a conversa,ela precisou expulsar o dragão que estava do lado de dentro. Foi como uma bola de fogo, saiu incendiando tudo. Um misto de emoções, dores e dissabores. Mas, era preciso, não era? E, até a hora em que ele andou para a porta, sem olhar para trás, ultrapassou a linha divisória entre o dentro e o fora, e bateu a mesma, ela sabia que a tal da semente ia ficar lá. Ela tinha conquistado o seu espaço.




Aí Maria acordou, ainda sem vontade de abrir os olhos, como numa tentativa de prolongar o sonho que acabara de ter. Na verdade, queria ver até onde a sua cabeça poderia desdobrar essa história. Não se sabe bem se ela ficou triste por ter acordado aí, ou feliz, por ter visto que acordou justamente onde deveria ter acordado. O fato é que, a primeira coisa que fez, antes mesmo de abrir os olhos, foi abrir a boca e falar:

- a semente de vulcão é o amor, seu idiota. Ah, se é...

E aí, abriu os olhos e emendou o cher antoine, je suis vraiment desolé mais je ne peux pas partir avec toi.

25.10.08

Crônica de um Menino Só

E ele era tão sozinho, mas tão sozinho, que cada um dos seus vinte dedos eram pessoas diferentes, alternando sexo, nome, sobrenome, idade, profissão e endereço (obviamente) a cada dia.
O ruim era só ter que enxaguar as mãos tortuosamente todo final do dia, deixar a água cair na pontinha dos dedos para apagar o cabelo mal desenhado, os olhinhos pequenininhos e a boca meio sorridente dos vinte. Doía ter que destruir tudo isso. Esquecer as horas de conversa, as horas de preparo dos dedinhos, tudo, tudinho.

Esse esfrega, esfrega deixava tudo vermelho: suas mãos - da onde saia toda a força - seus dedinhos - que recebiam toda a força - e o seu rosto, também. É que ele morria de vergonha de ter que fazer isso com as únicas companhias dele. Parecia uma espécie de traição, isso dele. Esse não querer se apegar a ninguém.

Ah, como ele odiava essa sua característica; algumas vezes, deitado no travesseiro, depois de todo o procedimento do 'lave mãos', ficava se perguntando se isso era uma qualidade sua ou um defeito. Ficava olhando os dedos das mãos, e, assim, tendo eles completamente nus, os observava meticulosamente. Parecia que cada giro das suas mãos era um movimento calculado. Procurava afeição por aqueles dedos que, a única identidade que poderiam ter era a de seus dedos, dedos do menino só. Entretanto, ele bem sabia que nunca quisera - e não iria ser agora - se apegar a nada, inclusive a ele mesmo. E, pelo rosto vermelho de vergonha em cada noite que ele colocava fim no seu simulacro, se sabe que ele realmente considerava isso um defeito seu. Só não se sabe porque ele tinha escolhido viver nesse faz de conta...

O fato é que, por escolher o simulacro como estilo de vida, ele teve lá as suas recompensas: na sua mente - tão obtusa e pequena - não convivia nunca com a mesmice.

É bem verdade que, estando num estado crítico de simulacro da realidade, ele podia criar o que quisesse, na hora que achasse conveniente. Mas, sinceramente, ele foi apenas enganado pela mesmice da vida: escolheu viver a mesma coisa todos os dias, mudando apenas algumas etiquetas das coisas que ele mesmo fabrica. E quem é que, hoje em dia, está interessado em viver apenas com o que se fabrica?

Triste de quem passa a cantar o todo dia ela faz tudo sempre igual todo santo dia.

Afinal, se a gente vê todo dia como santo, porque deixar o todo santo dia existir?


23.9.08

Porque era ela, porque era eu.

Dona Elizabeth mora na rua ao lado. É uma senhora no auge dos seus 70 anos: cabelos brancos, arrumadinhos, vestido florido, óculos grandes, sorriso cativante, olhar sereno. Sua casa é a de muro baixo, com uma caixinha branca do correio e um banquinho na calçada. É lá que ela costumava passar as suas tardes sentada, a olhar o movimento da rua. Até que dona Beth adoeceu por dentro: a vida dela foi mordida.

O marido dela, seu José, morreu. Senhor de idade, com vários problemas de saúde, vivia em uma cadeira de rodas, se alimentando por meio de sonda.Lembro bem desses dois. Toda tarde seu José e dona Beth ficavam ali, na calçada da casa deles: ele, numa cadeira de balanço e ela, no banquinho ao lado. Enquanto as crianças brincavam no meio da rua, empinavam pipa, corriam atrás de uma bola, dona Beth distribuia pipoca para as que iam sentando ali perto, cansadas de tanta correria. Seu José observava tudo. Ao invés de usar palavras, ele aprendeu a se comunicar com os olhos: eles diziam tudo que era preciso.

Pois bem. Certo dia, estava apressada, caminhando num passo só. Fui subindo a rua, em direção a parada de ônibus, sem me importar muito com o que ou quem estava no caminho. Carregava um furacão dentro de mim, na verdade. Enquanto andava, lágrimas escorriam dos meus olhos e eu só queria parar de pensar em tantacoisa e poder me acalmar e estancar aquele choro todo. Não foi preciso muito.
Lembro como se fosse hoje: bastou um olhar. Um olhar. O olhar mais bonito que já recebi até hoje. E foi dele, seu José. Ele estava ali, na mesma calçada, na mesma cadeira de balanço, do mesmo jeitinho - pequeno, frágil. Só que ele carregava todo o sentimento do mundo ali dentro daqueles dois olhinhos. E, no instante em que me encarou, eu pude sentir tudo isso. Era o que me faltava: a compreensão de alguém que nem sequer sabia o porque das minhas lágrimas, mas as entendia. Fui embora tranquila, carregando ele comigo.

Desde os meus tempos de criança, nunca falei com seu José ou com dona Beth. Mas, me sentia responsável pelos dois. Mais por ele, confesso. Ele passou a ser o meu talismã. Por muitos dias, passei pela frente da casa esperando o mesmo olhar. Nunca mais o recebi. Até que, certo dia, seu José não apareceu mais na calçada. Passou a ficar sentado dentro da sua casa. É, os sinais da idade chegavam, e seu José parecia não querer lutar muito contra eles. Assim, passaram-se dias, e nada dele na calçada. Dona Beth já não saia mais também. As coisas não iam bem. Fiquei preocupada.
Resolvi fazer a coisa mais sem noção que fiz até hoje, mas que não me arrependo de jeito nenhum: escrever para seu José. Na verdade, arquitetei todo um plano: escreveria um poema, colocaria num envelope e endereçaria ao 'senhor da calçada', colocaria na caixa de correios e pronto, simples assim. Fiz (quase) tudo certinho; na hora de colocar na caixa de correio, fui vista por dona Beth. Saí correndo que nem uma criança assustada, com medo dela me perguntar se eu sou louca. [hahahaha]
Eu não sei se alguém leu o poema para ele. O que eu sei é que, por várias semanas, passei por lá, na esperança de vê-lo. E, nada. Dias depois, soube que ele tinha falecido. Pobre seu José. Meu talismã tinha ido embora e eu nem tive a oportunidade de conversar com ele.

E dona Beth? Dela, ninguém soube mais notícias. Na verdade, até se sabe um pouco. Ela parou de sentar no banquinho da calçada - passou muito tempo sentada na cadeira de balanço dele - e de distribuir pipoca para as crianças que brincavam lá na frente. Ela agora tinha morrido junto. A vida dela tinha sido mordida, e ela não queria mais estancar a hemorragia que isso tinha causado lá dentro dela.
Eu só sei que essa semana passei por lá e a vi sentadinha lá dentro, na cadeira de balanço. Percebi que devia a seu José alguma coisa. É, devia mesmo.
Hoje, escrevi um poema do Leminski num papel branco e coloquei na caixinha de correio dela.

O poema dizia o seguinte:

nada que o sol
não explique
tudo que a lua
mais chique
não tem chuva
que desbote essa flor

P. Leminski


Eu não sei o que vai acontecer. Parei de fazer as coisas pensando nas consequências. Mas, sinceramente, espero poder ajudá-la. Eu sei que a vida não é justa, mas perder um outro talismã é maldade demais comigo.


*Seu José morreu ano passado, no final do ano passado.
*Em relação a idade de Dona Beth, eu tou chutando. Me guiei pela idade da minha avó :)